Borboletinha-delta

iG Minas Gerais |

acir galvao
undefined
Ana Cândida era a candura em pessoa, tão cândida que até a família era obrigada a concordar: a menina era uma chata. A começar pelos diminutivos, com aquela vozinha irritante quase sumindo. – Maninho! Me passa o pãozinho! Detalhe: o maninho era um colosso de 1,85 m de altura e 55 cm de bíceps, que, às vezes – na maioria das vezes, diga-se de passagem –, perdia a paciência com a irmã. – Ana! Fala direito, menina! O meu carro não está com um defeitinho, está com um p... de um defeito na embreagem. E quer saber? Enquanto você não aprender a dirigir direito, eu não te empresto mais. – Mas eu não tive culpa. Eu dirigi direitinho. Maniiinhoooo! Fica com raiva de mim não, maninho! – Tudo bem. Mas da próxima vez... Na faculdade era a chatice-mor. – Fessoooora! A senhora poderia, por favor, me explicar a última questão, se não for incômodo, claro! Eu estava um pouco desateeeenta e acabei perdendo a sequência do raciocínio, mas, se for atrapalhar a aaaaula, não tem nenhum probleeeema, eu entendo perfeitamente. Se for... E a professora, rapidamente, para se ver livre, repetia.   – Brigadinha, viu? A senhora é um amor... Detalhe: A “senhora” tinha 26 anos, era solteira, descoladíssima e ODIAAAVA ser chamada de “senhora”.  E assim, Ana Cândida, candidamente, ia levando a sua vida. – O jardim está cheio de borboletinhas – disse um dia, sem quê nem pra quê, ao colega do irmão, enquanto, da varanda, observava os insetos. – Anh? – Branquinhas e amarelinhas... Adoro borboletas, e você? – É. Legal! – exclamou o outro sem saber bem o que dizer. – Eu adoraria voar, e você? – Bom, já voei algumas vezes... de asa-delta. É uma sensação fantástica. – O maninho também. Um dia ele prometeu me levar à serra da Moeda. Semana que vem é meu aniversário, vocês me levam? – Anh? Claro. – Brigadinha, tá? Você é um amor... E como promessa é dívida, lá se foram os três. Ana, candidamente, com seu vestidinho floral e chapeuzinho branco – para desespero do irmão. – Pelo amoooor de Deus! Troca de roupa! Coloca um short, uma camiseta, um tênis, sei lá. Tudo menos isso. – Mas minha pele é branquinha, e eu não posso tomar sol. – Então põe um boné, pô! E tira esse chapéu ridículo. Chegando lá, ela cisma de voar. – Que nem borboletinha... – tenta explicar ao instrutor boa-pinta e atirado que, estranhamente, se interessa pela garota. – Menooooor possibilidade – interrompe o irmão, já arrependido de tê-la levado. – Podemos fazer um voo duplo – tenta explicar o professor ao amigo. – Eu quero! Eu quero! – insiste a outra com aquela vozinha quase sumida.  E assim, após algumas simulações, lá se foram; Ana Cândida com seu vestidinho floral, envolvida pelo instrutor moreno e tatuado, que a conduzia pelos ares sentindo a presença cândida e pura da garota que, entre exclamações de alegria, não deixava de agradecer-lhe pela experiência. – Obrigadinha, viu? Você é um amor... O que ele levou ao pé da letra. E assim continuaram voando. Levados pelo vento e pela imaginação na imensidão das montanhas. Que nem borboletinha, pensava Ana Cândida. Encantada.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave