Nem mesmo a beleza dos ipês consegue desviar o meu medo

iG Minas Gerais |

DUKE
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No sábado passado, de manhãzinha, deixo o silêncio da rua Espírito Santo, bem defronte ao velho e querido Minas Tênis Clube, que me traz saudades de um tempo que se foi e não volta mais, e ganho a praça da Liberdade, com destino – pela avenida Brasil – ao bairro Santa Efigênia. De repente, ao volante do meu carro, sozinho, e percorrendo ruas quase desertas de gente e veículos, sob um sol acariciante e um céu azul (sem uma nesga de nuvem branca), dou-me conta, finalmente, de que estou em Belo Horizonte, cujo verde ainda é capaz de extasiar qualquer observador, seja ele filho da terra ou não. Penso na cidade, nos seus eternos problemas, mas, sobretudo, na sua beleza, parte dela insuperável e gratuita, e então me lembro do quanto somos ingratos não só com ela, mas com todos os que, com erros e acertos, se arriscaram a administrá-la, eleitos por nós ou nomeados pelo poder discricionário da ditadura militar. Será que só os estrangeiros, que aqui vieram pela Copa do Mundo, são capazes de reconhecer as virtudes da cidade que deveríamos amar e respeitar? Infelizmente, em meio às inúmeras preocupações que me assolam sem sequer me pedir licença, que se dividem, digamos, entre familiares e cívicas, concluo logo, leitor, que nem mesmo os ipês floridos da praça da Liberdade são capazes de me desviar, por um só instante, do medo que frequentemente insiste em se apossar de mim. Medo, principalmente, do que possa repentinamente acontecer ao meu país e, obviamente (porque vivem todos aqui), aos meus filhos e netos. Medo quando sinto na pele o risco que todos corremos se não houver um paradeiro nessa roubalheira que tomou conta do país. Que prejudica, cruel e injustamente, os mais necessitados. Medo quando ouço as explicações da presidente Dilma Rousseff sobre as pesadas denúncias contra a maior empresa brasileira – a Petrobras –, que deveriam exigir dela ação imediata, isenta e enérgica. Depois de se excluir, por conta própria, de qualquer responsabilidade pela compra da refinaria de Pasadena, apesar de ter sido a presidente do Conselho Administrativo que a aprovou, Dilma tenta agora excluir, de toda e qualquer responsabilidade, a ex-diretora (e atual presidente) Graça Foster. Depois de ter feito a sua acalorada defesa, chamou de “factoides”, em entrevista no último domingo, as suspeitas que envolvem negócios, dirigentes e ex-dirigentes da Petrobras. Para ela, é muito perigosa a sua utilização eleitoral para comprometê-la e à sua direção: “Misturar eleição” – concluiu a presidente – “com a maior empresa de petróleo do país não é correto e não mostra nenhuma maturidade”. Depois do caso do banco Santander, que, por medo do governo, acabou demitindo quatro funcionários; depois das agressões dirigidas aos jornalistas da TV Globo e do jornal “O Globo” Míriam Leitão e Carlos Sardemberg, partidas de computadores alocados no Palácio do Planalto; depois dos depoimentos (uma farsa!), previamente preparados, de dirigentes e ex-dirigentes da Petrobras no Congresso; depois do que disse a contadora do doleiro Alberto Youssef sobre o funcionamento do esquema de pagamento de propina a políticos do Congresso Nacional; depois de tudo isso e muito mais, leitor, vem-me o desejo de gritar por socorro. Mas a quem, afinal, deveria gritar por socorro? Ou o débil mental sou eu, que não aprendi até hoje que bom cabrito não berra? Somos mesmo, meu caro Noblat, um bando de idiotas! E, para nos acudir, só Deus!

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