O retorno de Carlão Rocha

Após duas décadas dedicado à função de gestor público e nove anos sem dirigir, encenador volta com “O Urro”

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Traços. As ilustrações do mineiro Marcelo Lélis baseiam a composição visual do novo espetáculo
marcelo lelis/divulgação
Traços. As ilustrações do mineiro Marcelo Lélis baseiam a composição visual do novo espetáculo

Quase uma década após sua última direção de teatro, Carlos Rocha, o Carlão, retorna ao lugar de encenador com o espetáculo “O Urro”, que estreia amanhã, às 20h30, na Zap 18.

Desde 2005, quando fez “Super Zerói” e o infantil “A Toalha Mágica”, Carlão não dirigia. Fez, no máximo, trabalhos de dramaturgia, como em “Por Parte de Pai” (2012). Mas, pela perspectiva do veterano diretor mineiro, já faz cerca de 20 anos que a arte teatral ficou de lado (desde “Decameron, em 1993) para dar lugar à função de gestor, exercida à frente do Teatro Francisco Nunes e do FIT-BH por uma década e meia. “Todo o período em que estive no poder público municipal, não tive o mesmo tempo e envolvimento nos processos de criação”, diz.

Depois de o gestor tomar o espaço do artista, é o artista, agora, quem renasce. “A gente não sai incólume de mais de uma década de nada que faça, sai com marcas. Precisei de um tempo para deixar a poeira baixar dentro de mim mesmo”, conta Carlão, que carrega consigo uma história de mais de 30 anos de teatro, com reconhecido trabalho criativo e experimental, sobretudo à frente do grupo Sonho e Drama (1979-1989).

Fiel ao formato de teatro de grupo, pela possibilidade de pesquisa de linguagem e de construir uma história, Carlão diz não saber ainda se o caminho natural nesse retorno vai levá-lo à criação de uma trupe. Mas, significativamente, para a volta, escolheu um parceiro antigo, Gil Amâncio, como codiretor de “O Urro” e com quem já havia trabalhado na Sonho e Drama. Com isso, a trilha futura está aberta. “Tudo me leva a crer que vou voltar a fazer um novo trabalho com o Gil, pode ser o embrião de uma nova coisa”, diz.

O novo espetáculo nasce de uma trilogia de textos narrativos batizada de Fábulas Urbanas, que Carlão vem escrevendo – completada por “O Desaparecimento de Dylan” (em referência ao cantor) e “O Lixão”. Amâncio escolheu “O Urro” e os dois trocaram ideias sobre questões urbanas. “As relações possíveis ou não dentro das grandes cidades, os paradoxos urbanos: tanta gente e tanta solidão, tanta geração de riqueza e tanta pobreza”, cita Carlão. Como cenário dessa crise, foi criada a cidade fictícia de Urbanus, desenhada pelo quadrinista Marcelo Lélis, parceiro criativo no processo.

Rumos. Longe do FIT-BH desde 2010, Carlão diz que a atividade de gestor foi algo “bissexto” em sua trajetória e que nunca conseguiu operar bem nas duas funções – o que deixava a de artista prejudicada. “Eu já tinha avisado à Fundação que aquele seria meu último festival como diretor geral, porque não estava aguentando mais. Queria voltar a pensar o que é minha profissão de encenador, adaptador e dramaturgo. Eu até brincava que estava me ‘autovampirizando’, enfiando a unha no céu da boca para chupar o meu próprio sangue”, diz, aos risos. “Não era ruim, era exaustivo. Fiz o FIT com muita convicção e prazer”.

Sobre as críticas que o festival tem recebido nos últimos anos, sobretudo na edição 2014, ele se mantém à parte. “A minha estratégia desde que saí foi de não acompanhar mais nem me envolver em discussões do festival, exatamente porque qualquer crítica que eu pudesse fazer poderia ser vista como ressentimento. Tanto que nunca mais assisti a nenhum espetáculo do FIT. Quero ficar anônimo em relação ao festival. Uma última coisa que ouvi falar – mas faço a ressalva de que não acompanhei – foi que a cidade já não dá a mesma importância ao festival. Se isso é real, é uma perda muito grande”.

A postura é semelhante em relação ao Teatro Francisco Nunes, reaberto em maio após cinco anos de reforma. “Eu não sei quais são os novos projetos. A proposta que a gente tentou implementar era para além da ideia de ser exclusivamente uma barriga de aluguel, uma casa para receber espetáculo. Minha gestão tentou ter o teatro como fomentador e parceiro das (artes) cênicas. Não à toa, o FIT surge como uma das propostas do Chico Nunes num encontro com o Galpão”, relembra, traçando parâmetros para se pensar a gestão atual.

Carlão termina com uma comparação. “O teatro de BH é mais pujante e com maior volume de produção do que o de Curitiba, e o poder público municipal de lá administra 11 teatros. O único de BH é o Francisco Nunes. O poder público daqui não construiu mais nenhum teatro em 60 anos. Estamos na contramão da história, não investindo em uma área que tem a maior importância para a cidade, principalmente pela produção de grupos que dá projeção muito grande a BH. As pessoas estão fingindo não ver”, alerta.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave