Morreu o pós-petista

Desde o início da campanha, candidato do PSB tentou se colocar entre a mudança de Aécio e a continuidade da presidente

iG Minas Gerais | Ricardo Corrêa |

Eduardo Campos participou de sabatina com jornalistas do portal G1, no dia 11 de agosto.
Divulgação
Eduardo Campos participou de sabatina com jornalistas do portal G1, no dia 11 de agosto.
A queda do avião que acabou com a vida de Eduardo Campos tirou da campanha aquele que tentava se viabilizar como a personalização do que poderia vir após o PT na Presidência da República. Desde o início da corrida eleitoral, o esforço do candidato do PSB era para se colocar como o nome capaz de manter conquistas sociais do governo Lula, sem que fosse necessário recuperar estratégias utilizadas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, apontado como responsável por estabilizar a economia nos governos anteriores. Do passado de aliado de primeira hora dos petistas, que durou dez anos, pouco sobrou durante a campanha. Desde o dia 18 de setembro de 2013, quando seu partido anunciou oficialmente que estava entregando os cargos no governo, ou até um pouco antes, enquanto já disparava críticas à gestão Dilma Rousseff, Campos fez, rapidamente, o caminho até se tornar oposição. Ainda que isso ficasse claro, por suas falas, desde as primeiras entrevistas, ele sempre buscou se mostrar, no máximo, no meio do caminho entre Dilma e Aécio Neves, o natural opositor do governo atual. Foi assim até o fim de sua trajetória na disputa eleitoral, enquanto batia duramente em Dilma sem melindrar Lula, como se dissesse que a presidente é que não seguiu os avanços previstos quando ele fazia parte do governo. Deixar o escopo do Planalto e levar a cabo sua candidatura gerou efeitos imediatos. Nem todos, positivos. Representou, por exemplo, a ruptura com o governador do Ceará, Cid Gomes e seu irmão, Ciro Gomes. Eles deixaram o partido levando uma legião de deputados, prefeitos e vereadores, enfraquecendo a legenda justo no momento em que o PSB tentava dar seu maior passo. Sem Cid, Ciro e antigos aliados, em rota de colisão com o PT, disputando aliados com a oposição, Eduardo Campos começou a montar sua candidatura acuado, mas reagiu assim que a história lhe deu uma oportunidade. Foi quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) barrou a criação da Rede Sustentabilidade. Os 20 milhões de votos recebidos por Marina Silva nas eleições de 2010 deixaram de ter o destino certo naquele plenário do TSE e, em uma articulação surpreendente de bastidores, àquela altura, Eduardo Campos saiu das cordas para os holofotes da campanha. Ao aparecer ao lado de Marina, juntando forças e filiando os aliados da ex-senadora, assustou os dois grandes partidos e mostrou que poderia ser uma terceira via relevante. Campos tinha o partido nas mãos. O suficiente para, mesmo diante da inferioridade perante Marina, fazer prevalecer seu desejo de ser candidato. Deixou assim a ministra de Meio Ambiente como uma "supervice", que poderia vitaminar sua candidatura contra PT e PSDB. As pesquisas nunca mostraram crescimento algum. No máximo oscilações entre 6% e 11%, não necessariamente em uma trajetória evolutiva. Ainda assim, os socialistas não pareciam desanimados. A ideia geral da campanha sempre foi a de que, quando Marina aparecesse ao lado do candidato no início da propaganda eleitoral, a história começaria a mudar, ainda que com menos tempo que os rivais. Não foi possível esperar para ver. Refeitos do susto da aliança de Campos e Marina, os adversários evitaram movimentos bruscos. Deixaram de criticá-lo, sonhando que, um dia, teriam a oportunidade de tê-lo no segundo turno. Ninguém imaginava para onde iria caso ficasse pelo caminho na primeira etapa da disputa. Assim, foi poupado. Em sua última entrevista, na bancada do maior telejornal da TV brasileira, ele encerrou prometendo fazer, com o Brasil, um pouco do que tentava com sua campanha, com menos gente, estrutura e arrecadação. "Agora, ao lado da Marina Silva, eu quero representar a sua indignação, o seu sonho, o seu desejo de ter um Brasil melhor. Não vamos desistir do Brasil. É aqui onde nós vamos criar nossos filhos, é aqui onde nós temos que criar uma sociedade mais justa. Para isso, é preciso ter a coragem de mudar, de fazer diferente, de reunir uma agenda". Nunca saberemos até onde Eduardo Campos poderia chegar. Se ele, ainda que não agora, poderia ser mesmo o pós-petista que gostaria quatro anos mais tarde. Até Lula lhe fez essa proposta, para que esperasse até 2018 para receber seu apoio. Talvez a fizesse novamente no segundo turno. Mas Eduardo Campos conseguiu mudar três vezes a disputa eleitoral de 2014. Primeiro, ao deixar o governo e ser candidato mesmo com a violenta pressão da base aliada. Depois, ao aliar-se a Marina Silva de modo a se tornar viável nesta disputa, sem ter que esperar mais quatro anos para ser candidato para valer. Ao morrer repentinamente, lança, da pior maneira possível, novas dúvidas sobre o cenário, suficientes para alterar todas as análises que valiam até um minuto antes daquele avião cair.