Morte de celebridades expõe o drama da depressão masculina

Visão de que sintomas são “frescura” mantém doentes longe da ajuda necessária, e pode piorar quadro

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Premiado. O ator Robin Williams, 63, ganhou seu único Oscar com o filme “Gênio Indomável” (1997)
Frank Micelotta
Premiado. O ator Robin Williams, 63, ganhou seu único Oscar com o filme “Gênio Indomável” (1997)

As recentes mortes do ator e comediante Robin Willians e do humorista Fausto Fanti servem de alerta para uma condição que já atinge um terço da população – a depressão. Mais do que isso, eles são exemplos de como a grave doença pode levar ao suicídio.  

O presidente da Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), Maurício Leão, diz que é difícil estabelecer uma conexão entre o fato de eles trabalharem com humor e o de terem se matado, uma vez que a causa da depressão pode ser de origem genética ou estar ligada a outras doenças, intoxicações e até ser reativa a determinadas situações de estresse. “Mas não são raros os casos de pessoas ligadas a arte, pintura, literatura e música. Muitos palhaços são deprimidos. É uma tentativa de expressar o oposto daquilo que sente dentro de si”, comenta.

Tida como um dos grandes desafios da contemporaneidade, a doença já é considerada a maior causa de afastamento do trabalho, segundo aponta Leão. “Apesar de ser mais frequente em mulheres do que em homens, a depressão atinge cerca de 30% da população e está presente em todas faixas etárias. A cada três pessoas, pelo menos uma teve, tem ou terá (depressão) em algum momento da sua vida”, diz.

A estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) é ainda mais pessimista, colocando a patologia como a principal causa de incapacidade e morte em todo o mundo em 2030, superando o câncer, o acidente vascular cerebral, as guerras e os acidentes.

Homens. O professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Ian Cook pesquisou como a depressão se manifesta de diferentes formas em homens e mulheres. “Os homens tornam-se irritados, agressivos, bebem mais do que o habitual, ou evidenciam excesso de trabalho. Esses comportamentos conduzem ao quadro da depressão, que, não sendo tratada, levará a consequências negativas, tais como o suicídio”, diz. (Veja infográfico)

Segundo Leão, essa diferença de comportamento pode ter uma característica cultural por trás. “Em geral os homens têm esse imaginário de que procurar ajuda muitas vezes significa fraqueza e, por isso, a depressão e o tratamento são mais negligenciados”, diz.

Além disso, o psiquiatra afirma que o problema ainda é visto com preconceito e sinônimo de frescura. “No consultório recebo todos os dias pacientes que dizem que a família ou os amigos acham que é bobagem procurar um médico e que bastaria sair mais de casa e se divertir. Porém, quem diz isso não percebe que para um deprimido até sair de casa passa a ficar difícil”, diz.

O cineasta mineiro Pablo Vilaça também questiona essa visão. “A depressão é uma doença. Não é ‘frescurite’. Não adianta ordenar que alguém fique alegre. Falo isso como alguém que luta diariamente contra a depressão há 24 anos”, escreveu em seu Facebook.

O presidente da AMP orienta que familiares e amigos sejam mais atentos. “Nas relações sociais os sintomas podem passar despercebidos, mas as pessoas mais próximas e observadoras podem notar um conjunto de sintomas, como a tendência isolacionista, não sentir o mesmo prazer em determinadas atividades, conversar menos, queixar-se mais de cansaço, ter dores de cabeça, musculares e no peito”, afirma Leão.

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