Estratégia de moradores inclui ronda e comunicação via rádio

Reportagem passou uma noite na ocupação e acompanhou angústia de despejo iminente

iG Minas Gerais | Bárbara Ferreira |

Concentração. Moradores das ocupações se revezam em uma vigília em todas as 14 entradas do terreno
leo fontes
Concentração. Moradores das ocupações se revezam em uma vigília em todas as 14 entradas do terreno

O clima é tenso, e os olhares são, ao mesmo tempo, assustados e desconfiados. A noite parece não ter fim, e cada minuto é relevante. É assim que os integrantes das ocupações Rosa Leão, Vitória e Esperança, na Granja Werneck, têm vivido, na última semana, depois que o sol se põe. Com medo de uma operação de reintegração de posse truculenta, o sono é feito de pequenos cochilos, e um esquema de vigilância, rondas e resistência está sendo armado. Mas em vez de táticas de enfrentamento, os moradores do terreno na região Norte de Belo Horizonte se preparam para resistir. Não há sequer uma rota de fuga – o plano deles é permanecer no local até o fim.

A reportagem de O TEMPO passou a noite de segunda para terça em uma casa da comunidade – antes do informe desta terça à noite, da Polícia Militar, anunciando a reintegração de posse para esta quarta. Nas poucas horas de sono no local, cada barulho era motivo para despertar, e o temor de um enfrentamento era constante.

Enquanto esperam o despejo, os moradores estocam o máximo de comida e água que conseguem. No local onde antes funcionava uma biblioteca e aulas eram ministradas, agora há uma cozinha comunitária e quase um quartel-general da ocupação. Ali, os moradores fazem as refeições diárias e abrigam vários apoiadores da sociedade civil e de movimentos sociais. É lá também que todas as estratégias de resistência são planejadas.

Pilhas de garrafas pet, baldes e até tanquinhos são usados para estocar água. A comunidade recebe doação frequentes de alimentos, e refeições comunitárias têm sido preparadas. Além disso, individualmente, todas as famílias estocam comida. A ideia é que a medida garanta as necessidades básicas caso os moradores fiquem presos dentro da ocupação.

Articulação. O esquema é improvisado, mas bem articulado. Em todas as 14 entradas das três ocupações, foram montadas barricadas com restos de construção, móveis e até um carro, sempre com moradores em guarda por tempo integral. Eles se revezam, e normalmente são os homens que ficam em vigília. Além disso, três motocicletas são usadas em rondas noturnas. A comunicação entre os coordenadores do movimento e os homens das barricadas é feita com rádios comunicadores.

O envio de mensagens para a comunidade no caso da existência de algum risco iminente é feito com fogos de artifício. “Nós não conseguimos dormir. A cada foguete ou barulho que ouvimos fora de casa, já achamos que é a polícia vindo aqui. Para evitar chegar em casa e não encontrar mais nada, não estou saindo daqui nem mesmo para ir trabalhar”, contou o pintor Fernando de Souza, 24. Ele vive na comunidade com a mulher e os dois filhos.

Para a maioria dos moradores das invasões, a incerteza é o principal sofrimento. Há uma angústia por trás de cada um dos depoimentos. “Não sabemos o que vai acontecer e ficamos dias vivendo nessa insegurança. A única certeza é a de que vamos resistir. Para nós, essa é uma batalha legítima”, argumenta Charlene Christiane Egídio, 32, uma das coordenadoras das ocupações.

Ordem é nunca sair de casa

Todas as noites, os integrantes da ocupação fazem reuniões. Foi o que ocorreu nessa segunda, quando os moradores discutiram os rumos da resistência. Durante o encontro, a instrução principal dada pelos líderes foi a de resistir em casa e não abandonar o imóvel em nenhuma hipótese. Assim, os comandantes do movimento acreditam que têm mais chance de conseguir diálogo. Outra estratégia dos integrantes das ocupações é a formação de barricadas – a intenção é atrasar a subida da polícia e permitir a organização das famílias em suas casas. “Essa é a minha casa, e não tenho outra opção a não ser resistir. Daqui eu só saio morto”, afirmou o pedreiro Joaquim Alves, 64.

Perfil dos moradores

Ainda como parte da estratégia de resistência, integrantes das ocupações confeccionaram cartazes para informar a Polícia Militar (PM) sobre a presença de crianças, idosos e gestantes – eles foram colocados nas portas das casas onde há moradores com esse perfil. Certidões de nascimento dessas crianças também foram encaminhadas para o juizado especializado, por meio dos movimentos sociais. A saída espontânea de idosos, gestantes e crianças foi uma das orientações dadas pela PM, em um panfleto distribuído na tarde dessa segunda.

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