Mulher relata abuso em 1998

Vítima procurou O TEMPO após ler a reportagem que denunciou estupros em repúblicas

iG Minas Gerais | lucas faria |

‘Vida republicana’. Mulheres defenderam repúblicas após denúncias de estupros em Ouro Preto
DENILTON DIAS / O TEMPO
‘Vida republicana’. Mulheres defenderam repúblicas após denúncias de estupros em Ouro Preto

Uma mulher de 38 anos afirmou nesta terça ter sido vítima de tentativa de estupro em uma república federal de Ouro Preto, na região Central do Estado, em 1998. Ela entrou em contato com a redação de O TEMPO após ter lido reportagem publicada pelo jornal nessa segunda, revelando constantes casos de abusos contra estudantes em moradias estudantis da cidade histórica. “Quando li a matéria, senti aquele frio na barriga”, contou a mulher, que hoje trabalha como psicóloga e solicitou anonimato. O caso teria acontecido quando a vítima tinha 22 anos, na mesma república federal apontada pelo texto, publicado em um blog, que circulou na internet, reacendendo o debate. “Eu estudava em São João del Rei (no Campo das Vertentes) e fui com duas amigas para a ‘Festa do 12’, em Ouro Preto. Elas tinham um amigo que morava na república, e ficamos hospedadas lá. Começamos a beber com o pessoal, mas rapidamente fiquei muito tonta. Quando eles resolveram sair, eu não conseguia mais, e me falaram para deitar no quarto. Quando acordei, totalmente ‘capotada’, tinha um rapaz em cima de mim, tentando abrir a minha calça”, relata. A vítima conta que empurrou o jovem, que bateu a cabeça na porta e saiu do quarto. Segundo ela, ao contar o abuso para as amigas, foi condenada. “Disseram que eu tinha dado ‘brechas’. Todo mundo se comportou como se fosse um fato comum. Fui embora da cidade no outro dia de manhã, assustada”, relembra. Ela relata ainda que a vergonha a impediu de denunciar o agressor e, também, de conversar sobre o assunto. “Fico com um ressentimento muito grande de não ter tido coragem de conversar sobre isso. Nunca contei essa história nem para o meu marido, com medo de ser vulgarizada”, desabafa. Repercussão. A reportagem de O TEMPO repercutiu nas redes sociais, principalmente em um grupo de alunos da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) no Facebook, em que o texto foi publicado pelo vereador municipal Chiquinho de Assis (PV). Entre os comentários, várias estudantes mulheres deixam de lado as denúncias e partem em defesa da “vida republicana”. “Por que o alvo são sempre as repúblicas? Não quer morar, não mora. Não tem renda? Vai morar em alojamento!”, posta uma das garotas. O parlamentar do PV informou que não tinha conhecimento dos casos de estupro, mas admitiu que existe uma cultura de machismo, homofobia e abuso de álcool no ambiente das repúblicas “que deve ser debatida”. Para ele, os comentários são reflexos do machismo que ainda é presente na sociedade brasileira. “Acho que isso (os comentários) é fruto de uma cultura machista, que infelizmente encontra admiradores. São pessoas que vêm sendo criadas nesse universo que coloca a mulher em segundo plano, dominada pelo homem. Pelo menos não vi ninguém defendendo os abusos”, opina.

Relembre o caso Denúncias. Reportagem publicada nessa segunda por O TEMPO revelou denúncias feitas por estudantes e ex-alunas da Ufop, que contaram ter sido abusadas entre os anos de 2006 e 2014. Os crimes teriam ocorrido em festas, nas quais bebida chamada de “batidão bolado” era servida às convidadas, contendo remédios usados para dopar as mulheres. Nova delegada. Após a reportagem, a Polícia Civil informou que trabalha na designação de uma nova delegada para atender os crimes contra a mulher em Ouro Preto.

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