Nas fronteiras entre as artes

Projeto Digas! Poesia Falada realiza apresentação do poeta e músico Lirinha e do artista plástico Mozart Fernandes

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Miscelânea. No palco, enquanto Lirinha recita poemas acompanhado de sons eletrônicos, Mozart traduz o momento em vários quadros
Mônica Rodrigues
Miscelânea. No palco, enquanto Lirinha recita poemas acompanhado de sons eletrônicos, Mozart traduz o momento em vários quadros

Depois de fundar e passar 14 anos à frente do Cordel do Fogo Encantado, o poeta, ator e músico Lirinha vem concentrando-se em sua carreira solo. Além do primeiro CD, “Lira”, lançado em 2012, ele tem apresentado seu projeto Poesia Eletrônica, um recital pouco comum no qual poesias são declamadas juntamente com experimentações sonoras disparadas por um sampler.

Nas últimas apresentações, Lirinha tem sido acompanhado pelo artistas plástico Mozart Fernandes, que empresta à apresentação traços da intervenção “Mortevida”. Essa junção entre poesia, música e artes plásticas pode ser vista, pela primeira vez em Belo Horizonte, hoje, no Teatro Sesc Palladium.

O formato da apresentação funciona mais ou menos assim: enquanto Lirinha recita poesias de João Cabral de Melo Neto, Cancão, Micheliny Verunschk, entre outros, Fernandes fica de costas pintando diversos painéis. Tudo isso influenciado pela improvisação. “Sempre busquei uma formação orgânica para o espetáculo e, por isso, constantemente surgem coisas que não estão na programação. Aí, quando fiz pela primeira vez com o Mozart, no Sesc Mariana, fiquei encantado com os ambientes que ele criou”, diz Lirinha.

Responsável por essa “tradução” do lirismo em imagens, Mozart Fernandes leva influências da intervenção “Mortevida”, desenvolvida em parceria com Alberto Lizarazo, com a qual busca questionar o valor da arte. “No início queríamos discutir como alguns objetos de arte podem ser vendidos por valores tão astronômicos e outras por tão pouco. Mas nesse espetáculo, eu transponho aquilo que estou ouvindo para as telas”, relata.

O resultado, em resumo, são pinturas viscerais e caóticas que muitas vezes são descartadas no momento da apresentação. “Uma vez, eu terminei cobrindo tudo que havia pintado de preto. Quando fiz isso, ouvi os gritos a plateia pedindo para eu parar de fazer aquilo. Quer dizer, há uma envolvimento do público com o trabalho”, diz Fernandes.

Para o pintor, a maior riqueza do espetáculo está, além da qualidade estética, na capacidade de estimular as pessoas a participarem e interagirem em um recital de poesias. “Eventos poéticos, em geral, são voltados para quem gosta de poesia. E, assim, a poesia fica meio marginalizada, e o que o Lirinha faz é trazer isso para um público que gosta de artes plásticas, de música e teatro de uma forma criativa. Acho genial ele citar João Cabral de Melo Neto e fazer a galera pirar”, afirma.

Carreira. A proposta de Lirinha de fazer com que a poesia ocupe espaços com mais visibilidade não é recente. Enquanto líder do grupo Cordel do Fogo Encantado, o multiartista conseguiu abrir portas para a poesia tanto na mídia nacional quanto para o público maior. Porém, devido a divergências com o rumo da banda, optou por seguir solo. “O Cordel tinha uma base muito percussiva. Eu, como compositor e intérprete, tinha vontade de prosseguir meu trabalho com arranjos mais harmoniosos”, diz.

Nesse novo trajeto, conquistou uma liberdade maior, apesar de ainda sentir falta dos companheiros, confessa. O lado bom é poder tomar as próprias decisões da carreira que, atualmente, estão voltadas para criações e apresentações musicais alicerçadas, sempre, pela poesia e pelo teatro. “Pude concluir que me derreto pela música. Mas nasci numa zona de fronteiras entre as artes e sou formado por essas experimentações que sempre me acompanharão”, diz Lirinha, que adianta estar com o seu segundo álbum, ainda sem nome, pronto, mas que será lançado apenas no ano que vem.

Agenda

O quê. Digas! Poesia Falada com Lirinha e Mozart Fernandes

Quando. Hoje, às 20h

Onde. Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

Quanto. Entrada franca

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