Exibição é desafio ainda a ser vencido

Investimentos no parque exibidor não atendem ao desaparecimento dos cinemas de rua nas capitais

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Prioridade. Cinemas como o Belas Artes são preteridos nas políticas em favor de cidades sem salas
ALEXANDRE GUZANSHE/O TEMPO
Prioridade. Cinemas como o Belas Artes são preteridos nas políticas em favor de cidades sem salas

Crítica comum que se faz às políticas de investimento público no setor audiovisual do Brasil é que elas são demasiadamente focadas na produção, ignorando o grande gargalo do cinema nacional que é a exibição. Com a digitalização das cópias, a distribuição vem ganhando novo fôlego no país, com o surgimento de uma série de novas empresas, mas a exibição ainda é um grande desafio.

Com cerca de 3.000 salas de cinema, o Brasil ocupa apenas o 60º lugar na relação habitantes/sala em todo o mundo. A resposta da Ancine a esse quadro é o programa Cinema Perto de Você. Por meio da desoneração de impostos na compra e importação de materiais, além de investimentos na digitalização das salas em funcionamento, ele pretende incentivar a abertura de 800 novas salas no país até 2017.

O ponto-cego do programa é que, por sua própria natureza, o investimento é voltado para cidades que ainda possuem poucas salas de cinema ou nenhuma. Com isso, o problema do desaparecimento dos cinemas de rua nas capitais acaba passando batido, já que se entende que o público dessas cidades já tem um acesso mínimo ao parque exibidor.

“Não cabe, nem tem como a Ancine estabelecer critérios diferenciados para determinado tipo de organização empresarial. Os critérios precisam ser amplos, republicanos e suficientes”, justifica a diretora Rosana Alcântara. Ela não deixa de reconhecer, no entanto, que existem cinemas com aspecto simbólico e cultural muito importante para determinadas regiões e cidades – como o Belas Artes, um dos únicos sobreviventes em Belo Horizonte da invasão dos multiplexes.

“Quando a agência é convidada a participar e mediar conversas desse tipo, ela tem comparecido e estimulado o poder local, municipal ou estadual, para que atuem em relação a esses processos”, afirma. Mas, se prefeituras ou governos estaduais não se manifestarem, não há muito que a Ancine possa fazer.

Animação. Por fim, uma questão levantada recentemente com o sucesso das animações brasileiras “Uma História de Amor e Fúria” e “O Menino e o Mundo” no Festival de Annecy, na França, é a falta de um edital específico para esse tipo de produção, em franca ascendência técnica e criativa por aqui. “Não sei se é necessária uma linha específica para animação. Isso ainda é um debate interno na agência”, confessa a diretora.

Ainda assim, a Ancine já começou a entender que o gênero tem um tempo criativo e um investimento tecnológico diferenciados, que precisam ser tratados dessa forma. “Acabamos de fazer uma reforma nas regras do Fundo Setorial do Audiovisual justamente para que os projetos de animação possam ter ampliação do seu prazo”, contrapõe Alcântara.

Com dez filmes acima de 1 milhão de espectadores, e 26 com mais de 100 mil, em 2013, o audiovisual brasileiro está, para a diretora da Ancine, no caminho certo. “Para nós, são importantes a pluralidade de fontes e a diversidade cultural. É importante termos projetos pequenos, médios e grandes, que abordem aspectos e regiões diferenciadas, de documentários a blockbusters, passando por animação, experimentação de formatos, games, pílulas. Mas é fundamental que o próprio mercado se adapte”, conclui.

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