Segmentar para conquistar

Diretora da Ancine defende que especialização é caminho para fortalecimento do audiovisual brasileiro

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Qualidade. Para Rosana Alcântara, há limites no poder de interferência da Ancine no processo criativo das produções nacionais
Uarlen Valério
Qualidade. Para Rosana Alcântara, há limites no poder de interferência da Ancine no processo criativo das produções nacionais

No início de julho, o governo federal anunciou um aporte de R$ 1,2 bilhão para o audiovisual brasileiro por meio do programa Brasil de Todas as Telas. O investimento – destinado ao desenvolvimento e produção de formatos e obras para cinema e TV, além de formação, distribuição e exibição – foi recebido com olhos sedentos pelos profissionais da área, mas atraiu também a desaprovação desconfiada de alguns críticos.

No centro dessa crítica, está a velha e implacável questão da qualidade. Para eles, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) – que deveria ser uma agência reguladora e fiscalizadora, como a Anvisa ou a Anac – é simplesmente um órgão de fomento. E, ao não cumprir totalmente seu papel, permitiria que os mesmos agentes de sempre utilizem os vultosos recursos para produzir as mesmas comédias que inundam as salas atualmente – ou os seriados que, muitas vezes, ocupam espaço nas grades sem decolar para uma segunda temporada.

“A situação do audiovisual no Brasil é de suporte para desenvolvimento”, defende a diretora da Ancine, Rosana Alcântara, que esteve em Belo Horizonte no início de agosto para um encontro com produtores locais e falou com exclusividade a sobre as políticas públicas de cinema no país. Segundo ela, diferentemente do que acontece com outras cadeias produtivas, nas quais não há necessidade de investimento público para evoluírem, a agência entende que seu objetivo primordial é alavancar e ter medidas de estímulo à área audiovisual, com foco especial na produção independente.O TEMPO

“Nesse sentido, ter linhas de fomento e, a partir delas, estabelecer algumas regras necessárias se faz absolutamente importante”, argumenta a diretora. Mas, de acordo com Alcântara, mesmo essas regras têm limites – legais e de princípios.

Ela não acredita, por exemplo, que seja papel da Ancine determinar que uma produtora – que vem conseguindo bons resultados com um tipo de obra, como as comédias – passe a diversificar sua cartela para ter acesso a recursos públicos. “Não temos poder, e acho que não seria desejável hoje na organização republicana do país nenhum órgão ter poder além da indução, de dizer que deve ter mais ou menos financiamento para obras com perfis X, A ou Z”, justifica.

A diretora defende, na verdade, que essa segmentação é o caminho para o fortalecimento de uma verdadeira indústria audiovisual no país. Para explicar isso, ela usa o exemplo do efeito causado pelas cotas estabelecidas na Lei 12.485, de 2011, que ficou conhecida como a Lei da TV Paga.

“No primeiro ano das cotas, trabalhamos com filmes de catálogo já produzidos há muito tempo, que tiveram outra oportunidade de serem comercializados, e obras que já estavam sendo feitas nos anos anteriores”, descreve. Alcântara admite que a resposta do público a essa fase inicial, que ela chama de “ajuste de modelos”, nem sempre foi muito positiva, já que o nível do audiovisual no mundo hoje é muito “refinado e sofisticado, e o produto brasileiro está caminhando”.

“É natural que o público goste mais de algumas séries e menos de outras porque isso vai ao encontro do desenho de fidelização dos canais por assinatura, como existe lá fora: animação, série policial, comédia”, ela avalia. Com isso, a diretora acredita que as cotas na TV paga estão começando um segundo momento em que, daqui para frente, as obras serão trabalhadas pensando “naquele público, naquele perfil, naquele horário”.

“Ao passo que você vai profissionalizando cada vez mais as produtoras para também definirem seus perfis com cartelas amplas de projetos, mas sem necessariamente fazer do A ao Z”, elabora.

Mesmo com essa política de não interferir nas questões mais essencialmente criativas dos produtos, a Ancine parece reconhecer, porém, que existe um problema de defasagem de qualidade em muitas das obras que vêm chegando às telas hoje. Para responder a isso, a agência lançou em 2014 o primeiro edital para cinema, destinando R$ 20 milhões a produções com foco em “relevância artística” – bem menos que os R$ 70 milhões do suporte automático anunciado no Brasil de Todas as Telas para produtoras com sucesso comercial.

Além do edital, três novas linhas – de R$ 18 milhões, R$ 10 milhões e 25 milhões – também foram abertas no Fundo Setorial do Audiovisual para investimento na fase de desenvolvimento dos projetos. “Se os produtores e profissionais tiverem suporte para – nessa fase que vai da concepção, estudo e intercâmbio de ideias, e troca de experiências, à adaptação de roteiro, em que você possa fazer um tratamento, dois, tantos quanto forem necessários – chegar a uma melhor modelagem, essa obra vai chegar mais madura na tela”, propõe.

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