Os encontros do absurdo

Coletivo e Eid Ribeiro chegam ao terceiro trabalho juntos e verticalizam pesquisa sobre humor negro e objetos

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Absurdo. Estética de show de variedades relembra Charles Chaplin, Buster Keaton e os irmãos Marx
Bruno Magalhaes / NITRO
Absurdo. Estética de show de variedades relembra Charles Chaplin, Buster Keaton e os irmãos Marx

Eid Ribeiro e o teatro do absurdo trilham juntos um caminho que já rendeu ótimos trabalhos, como “Lusco Fusco”, da Cia. Acômica; “Joe e John”, do Grupo Trama de Teatro; e, recentemente, “No Pirex”, do Armatrux. A relação do encenador com um tempo dilatado e diálogos pouco usuais (comparados às conversas do dia a dia) ganha com a nova montagem do Armatrux um novo elemento: a música ao vivo. “Esse é um delírio bom do Eid, ele viaja muito na sonoridade. Independente de ter ou não música ao vivo, as montagens dele têm uma musicalidade própria, que vem dos tempos dos personagens. Além disso, ele costuma selecionar a trilha de seus espetáculos”, comenta Rogério Araújo, ator do grupo Armatrux.  

Para “Tchácht”, que estreia na quinta, no Teatro Oi Futuro, os atores do Armatrux decidiram começar estudos com instrumentos musicais que se tornaram elementos cênicos na nova peça. “A gente leva na interpretação”, brinca Cristiano Araújo, que estuda violino. Seu irmão Rogério já tinha conhecimentos de piano e os retomou recentemente. “Sempre quis fazer um espetáculo com música ao vivo. Foi um processo de aprendizado musical”, comenta o diretor.

A nova montagem traz como referência estética o antigo e popular teatro de variedades, onde artistas como Charles Chaplin, Buster Keaton e os Irmãos Marx iniciaram suas carreiras – e, posteriormente, fizeram grande sucesso no cinema mudo. “É um espetáculo musical, mas sem a estrutura que se vê de musicais”, comenta Ribeiro.

Esse é o terceiro trabalho consecutivo do Armatrux com Eid. Antes vieram o infantil “De Banda para a Lua” e “No Pirex” – este, sem nenhuma palavra dita em toda a peça. “O meu tempo é bem longo para criação, e eles me proporcionam essa dádiva de fazer qualquer coisa e, disso, nascer alguma coisa. Isso para mim é fundamental”, destaca o diretor. “Tento fazer uma fusão de tudo que o grupo já tem como característica e desenvolver o trabalho. Então, o teatro físico, os elementos do circo, o teatro de sombras, os bonecos (característicos do Armatrux) são muito importantes”, completa.

Como “No Pirex”, o novo trabalho tem uma clima mais soturno, mais absurdo, e se vale do humor negro no jogo cênico, aprofundando uma nova linha de pesquisa. “Seguramente os dois espetáculos dialogam entre si. O que começamos no primeiro aparece aqui (em “Thácht”) também”, garante Ribeiro.

Antigo? Com 71 anos de idade, mais de 50 dedicados ao teatro, o mineiro de Caxambu pode ser visto como um veterano, um representante do teatro de antigamente, quando a figura do diretor centralizava quase todas as decisões referentes ao espetáculo, certo? Errado! “Acho que a experiência dele com o FIT (Festival Internacional de Teatro, do qual Eid Ribeiro foi curador por vários anos) fez com que tivesse contato com muitos processos contemporâneos de criação. O Eid é muito inteligente, ele não cometeria a ingenuidade de desconsiderar o que o ator tem a dizer”, revela Rogério, que é um dos fundadores do grupo Teatro Invertido, famoso por processos criativos horizontais e colaborativos.

Ribeiro deverá estrear outro trabalho ainda neste ano, a partir de contos do norte-americano Tennessee Williams, com um grupo de quatro atores que o convidou para a missão. “Eles queriam encenar ‘Seis Atores à Procura de Um Autor’ (de Luigi Pirandello), mas, como são apenas quatro pessoas, a adaptação tomaria muito tempo. Na época, estava lendo um livro de pequenos contos do Tennessee e achei que poderia ser uma boa”, adianta o diretor.

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