Perdidos na memória

‘Tchácht’, do Armatrux, tem texto e direção de Eid Ribeiro

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Duplo. Os irmãos gêmeos Cristiano e Rogério Araújo vivem Rafa e Rufo, dois artistas idosos imersos em recordações e diálogos absurdos em um asilo
bruno magalhães/divulgação
Duplo. Os irmãos gêmeos Cristiano e Rogério Araújo vivem Rafa e Rufo, dois artistas idosos imersos em recordações e diálogos absurdos em um asilo

“Mais um, né?”. A voz pode transparecer um certo cansaço ou até certa indiferença ao começar a conversa sobre “Tchácht”, espetáculo do Armatrux que estreia na quinta, mas a verdade é que o veterano Eid Ribeiro, com seus mais de 70 anos, comprova a cada novo trabalho um desejo enorme de continuar produzindo. “Eu digo que é ‘Em Busca do Tempo Perdido’ (clássica série de livros de Marcel Proust), é uma corrida contra o tempo. Eu vivi minha vida mais dentro da sala de ensaio do que fora. É o que sei fazer. Quando eu não estou ensaiando, estou escrevendo ou lendo peças. O meu prazer é fazer teatro”, garante Eid Ribeiro.  

O processo de criação do novo trabalho começou há dois anos quando o Armatrux pesquisava Adolf Hitler e Charles Chaplin. “Eu queria fazer uma analogia por conta do bigodinho”, lembra Ribeiro. Mas o processo se arrefeceu por falta de recursos. “Daí, para que os atores não ficassem parados, eu sugeri que o grupo trabalhasse com ‘O Cachorro de Três Pernas,’ um texto meu”, completa o diretor.

Charles Chaplin e “o vagabundo” deixaram rastros, no entanto. Os personagens da montagem do Armatrux usam chapéu-coco e bengala. Buster Keaton, outro cômico clássico do cinema mudo, também foi referência. E, nesse caldeirão de ideias, o teatro do absurdo, marca de Eid Ribeiro, se transformou num teatro de variedades, com música ao vivo e uma cantora transformista. “A gente faz uma ‘mistureba’ usando os elementos que eles (os atores) já trabalhavam. O espetáculo acabou ganhando uma estrutura que dá para entender que tem uma história por trás”, revela Ribeiro.

A peça aborda fragmentos da vida de Rafa e Rufo, artistas de variedades que vivem de suas recordações. Os dois cômicos desenvolvem um diálogo absurdo, usando de forma única a musicalidade nas palavras. O espetáculo conta também com a participação da diva transformista Siboney, uma cantora que ganha vida nas memórias da dupla, e a curiosa presença da mulher de um atirador de facas.

“Tchácht” é uma espécie de onomatopeia de palavras inventadas por um dos personagens da trama. E o que quer dizer, afinal? “Não quer dizer nada!”, responde taxativo Ribeiro.

“Durante alguns momentos os personagens se perguntam: ‘mas o que você quer dizer com isso?’ e a resposta é sempre ‘nada, eu não quero dizer nada’, e isso serve de mote para a peça, mas ao mesmo tempo, as coisas sempre dizem alguma coisa”, filosofa Rogério Araújo, um dos atores do novo espetáculo. “O Eid tem essa coisa de trabalhar uma mistura maluca de idiomas: do alemão, francês, russo”, completa.

Gêmeos. Um ponto que poderá causar estranheza no espectador é ver a dupla de irmãos gêmeos Cristiano e Rogério Araújo em ação. O uso da duplicidade, quase de maneira caricatural, é algo delicado para os gêmeos. “A gente gosta de pensar isso com cuidado, para que não seja uma coisa óbvia, um jogo de espelhos besta. Acho que é preciso bom senso e, nesse sentido, estamos trabalhando com o Eid, que é um diretor com uma visão estética muito interessante”, comemora Rogério.

A imagem duplicada contribui para construção do ambiente nostálgico dos dois personagens centrais do espetáculo: Rufo e Rafa. “Eles são muito parecidos em tudo. A roupa é idêntica, a postura também. A voz é diferente. Uma coisa legal de trabalhar com o Eid é que ele não fecha todas as questões do espetáculo. Então, às vezes não fica claro onde os personagens estão, o que fazem etc. No caso de Rufo e Rafa, não se sabe se eles são irmãos, velhos amigos de profissão. Será que são duas ou apenas uma pessoa? Fica a critério de quem assistir”, revela Cristiano.

Teatro acessível Na sessão de domingo, dia 17, o espetáculo contará com audiodescrição e tradução para Libras (Língua Brasileira de Sinais) para ser acompanhado por pessoas com deficiências visual, auditiva, intelectual, autistas, disléxicos e síndrome de Down. A iniciativa pretende fazer com que todo o público possa desfrutar com independência e fluidez.

Agenda

O quê. “Thácht”

Quando. De quinta a sábado, às 21h. Domingo, às 19h

Onde. Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras)

Quanto. R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

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