‘Vida republicana’ é criticada

Estudantes e professora criticam critérios para escolha de moradores e ambiente permissivo

iG Minas Gerais | Lucas Faria |

Ouro Preto. Em 2011, o MPF recomendou que a Ufop adotasse critérios objetivos para o acesso às repúblicas federais
DENILTON DIAS / O TEMPO
Ouro Preto. Em 2011, o MPF recomendou que a Ufop adotasse critérios objetivos para o acesso às repúblicas federais

Em 2011, o Ministério Público Federal em Minas Gerais recomendou à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) a adoção de critérios objetivos de acesso às repúblicas federais da cidade histórica, uma vez que tratam-se de moradias gratuitas. “Deverá preponderar a situação econômica daqueles que pretendam residir nos imóveis”, destacou o órgão, relatando que denúncias feitas à época davam conta de que “a universidade vem conferindo plena liberdade aos estudantes para o estabelecimento das condições de ingresso”.

Segundo a universidade, as repúblicas federais de Mariana, os apartamentos do Bauxita (bairro onde fica o campus) e os alojamentos possuem acesso por critério socioeconômico. No entanto, as repúblicas federais de Ouro Preto (localizadas no Morro do Cruzeiro e no centro histórico) são beneficiadas pela autogestão. “Cada casa tem seu regimento interno e, portanto, um critério de seleção próprio que dura três meses, no qual são avaliados o espírito de solidariedade e o senso de comunidade”, informou a instituição.

Os estudantes, contudo, relatam que o processo de seleção de moradores para as residências para os universitários passa longe da solidariedade. “As ‘batalhas’ são terríveis. Os ‘bichos’ – como são chamados os pretendentes às vagas – são obrigados a beber, já teve até morte (em 2012). Tem casos de ‘bichos’ que foram obrigados a comer o próprio vômito, que tomaram ‘baldadas’ de urina. Sem contar a tortura psicológica. O ‘bicho’ tem que fazer as tarefas domésticas, é xingado a todo momento, só pode dormir depois de todos os moradores”, conta uma estudante, que pediu anonimato à reportagem.

Para Nadini Tavares, estudante de Letras e integrante da Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (Anel), a moradia estudantil gratuita deve ser destinada obrigatoriamente a alunos de baixa renda. “É justo que o estudante que chega à cidade sem dinheiro tenha que passar seis meses ou mais ‘batalhando’ uma vaga, sujeitando-se a pedidos e mandos da hierarquia da casa para ser aceito?”, questiona.

Em nota, enviada por e-mail, a Ufop afirma que “não existe batalha” e que o processo de seleção de moradores é previsto pelo Estatuto das Residências Estudantis, aprovado pelo Conselho Universitário. Já a Associação de Repúblicas Federais de Ouro Preto (Refop) admite o processo de seleção, mas garante que os trotes foram abolidos pelo estatuto. “O sistema de batalhas não é nada mais que um período de aprendizagem pelo qual os calouros passam. Eles se adaptam às casas, aprendem o funcionamento das repúblicas, criam amizade com os moradores e são ‘escolhidos’ após avaliação dos residentes”.

Sobre o episódio de 2012, que resultou na morte de um aluno em uma república federal, a Ufop disse que, “após cerca de 60 dias de investigações, a Comissão de Sindicância concluiu que o aluno não foi vítima de trotes, tampouco obrigado a consumir álcool”. A universidade federal informou, ainda, que foram realizadas campanhas educativas com os estudantes após o ocorrido.

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