‘Jeitinho brasileiro’ chega aos semáforos junto com inflação

Com produtos menores ou absorvendo reajuste, muitos ambulantes evitam subir preço final

iG Minas Gerais | ludmila pizarro |

Renato Ferreira absorve mais de 20% de aumento nos preços
JOÃO GODINHO
Renato Ferreira absorve mais de 20% de aumento nos preços

Há cerca de um mês, Wellington Wagner de Miranda vendia doces próximo a um terminal do metrô por R$ 2 – a maioria deles. Hoje, os produtos custam R$ 2,50, e uma versão menor – que é a metade da tradicional – é vendida a R$ 1,50. “Fiz esse combinado com a minha tia, que faz os doces, porque tudo subiu. A matéria-prima, amendoim, coco, leite, todos esses produtos estão mais caros no supermercado”, afirma Miranda.

A estratégia é conhecida dos empreendedores. Diminuir a quantidade com o mesmo preço é uma forma de manter a margem de lucro, o que está ficando difícil para os ambulantes de Belo Horizonte.

Leandro Moreira, vendedor de frutas na avenida Amazonas há oito anos, também reclama dos preços altos. “De um ano para cá, a fruta vem subindo todo mês. A última vez que subiu tem cerca de 30 dias. E o cliente não entende se a gente subir também, e não compra. Então, a gente ganha menos”, lamenta o ambulante.

Ele também utiliza o famoso “jeitinho” para diminuir sua perda. “Antes, eu comprava a caixa com seis goiabas grandes. Agora, compro com sete ou oito goiabas menores. Antigamente, eu vendia três grandes por R$ 10, agora vendo quatro pequenas pelo mesmo valor”, explica.

Em alguns pontos de Belo Horizonte, a garrafinha de água mineral já está sendo vendida por R$ 2,50 – um aumento de 25% diante do valor antigo, de R$ 2. A vendedora Cristiane Soares Paiva, que atua na avenida Amazonas, aumentou o preço na semana passada. Já Renato Ferreira, que comercializa água, pipoca doce e mexerica na Via Expressa, não repassou o aumento. “Se eu subir a água de R$ 2 para R$ 2,50, as pessoas param de comprar na minha mão”, acredita o vendedor.

Ele também não repassou o aumento da pipoca que foi, no último mês, de 22%. “Eles falam que a pipoca encareceu por causa da importação de milho. Não sei, mas a nossa margem só vem diminuindo”, diz. A mexerica, segundo Ferreira, subiu 17,6% neste ano em comparação a 2013.

Inflação. Os aumentos citados são maiores que a inflação oficial de Belo Horizonte, que chegou em julho, no acumulado de 12 meses, a 6,7%. Segundo a economista Thais Martins, do Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead/UFMG), que mede a inflação na capital, o fenômeno acontece porque a cesta de produtos usada para fixar a inflação não é a mesma do consumidor. “Por exemplo, a água mineral não está na cesta. Então, o aumento pode ser muito mais significativo para quem consome esse produto”, explica.

Cada vez mais caro

6,7% é a inflação de julho em BH acumulada nos últimos 12 meses, diz o Ipead/UFMG

22% é quanto subiu o preço da pipoca doce para quem compra no atacado

17,6% é o aumento que sofreu a mexerica em 2014, na comparação com 2013

Safra cara

Mexerica. O vendedor Renato Ferreira afirma que, há um ano, a caixa de mexerica era comercializada no atacado a R$ 17, e hoje, um ano depois, o valor da caixa do produto chegou a R$ 20.

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