Salgado tête-à-tête

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Baobás, Mentawai, Dinca, Adelita, durião. A exposição com fotos de Sebastião Salgado já se aproxima da reta final no Palácio das Artes, termina no dia 24 próximo, daí o alerta, pois, como sabemos, são raras as oportunidades como tal de ver tête-à-tête as imagens que esse mineiro de Aimorés capta pelo mundo e faz delas, mais que beleza estética, um chamamento à consciência individual e coletiva sobre o planeta hoje e futuro. A série “Genesis”, tema desta exposição, abarca 32 regiões extremas do mundo. São mais de 200 imagens em preto e branco de lugares inacreditavelmente ainda intocados e preservados, embora a urbanidade já mostre seus reflexos, por exemplo, nas fotos que mostram o deslocamento das imensas geleiras na Antártida. Detalho um pouco do que está presente na galeria, acompanhado de comentários do próprio fotógrafo. Um dos exemplares da mostra é uma fotografia de baobás-de-grandidier em Madagascar. São árvores de oito, dez metros de circunferência, numa floresta extremamente rara, pois como lembrou o próprio Salgado, a degradação ambiental é grande em Madagascar, seja pela expansão da agricultura ou pelo crescimento populacional (qualquer semelhança com a nossa Amazônia é verdadeira). Para realizar esse trabalho, ele embarcou em um avião monomotor e fotografou amarrado a uma abertura do avião a 80 quilômetros por hora, com as pernas para fora. Na saída da Antártida, em um barco à vela, Sebastião Salgado encontrou um iceberg que considerou em perfeitas condições de luz para fotografar, envolto em um céu denso. Ele pediu então ao comandante para dar duas voltas no iceberg que descreve como se fosse um castelo da Escócia, cortado pelo vento, pela erosão, pelo mar, pelas tempestades, do tamanho de dois a três quarteirões. É um iceberg muito antigo, entre 800 a mil anos, que toca o fundo, constituído de um gelo já quase azul pois expulsou o que trazia de oxigênio e por isso se tornou duríssimo. Também na Antártida, Salgado ficou amigo de uma baleia franca-austral de cerca de 40 toneladas e 30 metros de comprimento. Ele contou que depois de um período de convivência ela se aproximava do barco como se fosse um cachorro de estimação e Sebastião a acarinhava. Quando a fotografou, a uma distância de sete a dez metros do barco, estavam próximos da baía Adélia, por isso Salgado a batizou de Adelita. Ele lembra que hoje a baleia franca-austral está quase semi-extinta, pois é uma presa relativamente fácil à ação dos caçadores ao longo do tempo. Ao Sul do Sudão o aimorense conheceu os Dinca, povo sedentário que uma vez por ano se torna nômade. Eles saem de suas aldeias com criações de gado, entre sete a 10 mil cabeças, encontram-se com seus pares e partem à procura de alimento e água para o gado. Estão próximos do rio Nilo e se dirigem para as partes em que houve enchente do rio, formando uma terra úmida e de rica vegetação. São humanos altos, os homens têm em média de 2 metros a 2m10 e as mulheres, de 1m90 a 2 metros. Uma população sobre a qual ele destaca a pureza como traço original. Na Indonésia, em uma das ilhas Mentawai, Salgado fotografou no meio de uma mata densa, um integrante de uma tribo subindo em uma árvore de cerca de 40 metros de altura para buscar um fruto chamado durião. Eles escalam a árvore correndo, usando uma espécie de corda de fibra. Segundo o fotógrafo, o durião é delicioso é se parece com a nossa jaca. São enfim, exemplos da exposição que traz ainda fotografias e material educativo do projeto do Instituto Terra, de recuperação de uma grande área devastada da Mata Atlântica no Vale do Rio Doce, idealizado por Sebastião Salgado e sua esposa Lélia Wanick. Nunca é demais falar dessa iniciativa a mostrar que, quando há vontade de fato, é plenamente possível a recuperação ambiental, tema tão premente, haja a vista a escassez de água a nos chamar a atenção nas torneiras vazias. 

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