Carreira marcada por revelar gritos dos mais fracos

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Artista Sérgio Bello vai expor pela primeira vez em Belo Horizonte
FOTO: SK DESIGN / DIVULGACAO
Artista Sérgio Bello vai expor pela primeira vez em Belo Horizonte

[NORMAL_A]Um artista é matéria viva. Ele faz um percurso, em sua carreira, cheio de curvas e metamorfoses. Alguém que produz há tanto tempo, como é o caso de Sérgio Bello, fatalmente passa por muitas (várias!) mudanças, sejam estéticas ou temáticas. Ainda assim, há ali uma essência que é notória e perpassa toda sua obra. “É um trabalho muito colorido, muito intenso. O Sérgio Bello sempre foi uma pessoa de personalidade barroca, eu digo isso em relação à intensidade com que ele leva a vida”, garante Ricardo Fernandes, curador da exposição “Remake Aleijadinho, Gritos e Profecias”, que será aberta amanhã no Museu de Artes e Ofícios.

Ao tentar estabelecer relação entre forma e conteúdo e falar sobre sua obra, o artista pernambucano ressalta que ela é “bela e rebelde”. “É bela, mas não é decorativa. Ela é sempre dramática, sempre grita”, ressalta. “Creio que o público vá ter uma noção dialética do trabalho, do artista e de sua trajetória, mas também será possível ver sua poética”, completa Fernandes.

Além das obras inspiradas nos profetas de Aleijadinho, o público poderá conferir outra série de trabalhos de Bello, intitulada “Gritos dos Povos”. “Meu trabalho sempre foi um trabalho de gritos”, frisa Bello.

“Eu diria que o trabalho dele, além de ser atual, é profético. ‘O Grito de Israel’ e ‘O Grito da Palestina’, por exemplo, são quadros pintados há mais de 20 anos”, opina o curador. Bello ainda é autor da série “Gritos da Terra”, que tem uma “pegada” mais ecológica. Essa, no entanto, não vem a Belo Horizonte. “Eu não sou contra o progresso, contra as coisas modernas, mas precisamos fazer esse mal para a natureza?”, indaga ele.

MEStrado. Radicado em Paris desde 1978, Bello estendeu seu interesse pela obra de Aleijadinho até o meio acadêmico e defendeu uma dissertação de mestrado em Sorbonne sobre o tema. “A obra dele é uma interpretação, não só do trabalho plástico de Aleijadinho, mas do que ele pretendeu com sua obra. Esses gritos de defesa das minorias, das quais o próprio Aleijadinho pertencia. Isso demonstra um entendimento profundo da obra”, destaca Fernandes.

O desejo de liberdade, de se expressar, também é ressaltado. “Nosso primeiro grito, expressão de direito natural de todos os seres humanos, conquistado no momento em que aportamos na terra e sinal da consciência de nosso primeiro ar e primeiro contato com a natureza externa, é um grito de vida. Baseado neste direito ao grito da vida, Bello reinterpreta a obra barroca de Aleijadinho e traduz na pintura sua versão pessoal de cada profeta que sai em defesa dos oprimidos, entoando seus gritos de liberdade”, filosofa.

Natural de Belo Horizonte, Fernandes também vive em Paris, onde tem uma galeria de arte que leva seu nome. Lá, segundo ele, tenta valorizar e mostrar a arte produzida no Brasil e nos países vizinhos. Ele celebra a oportunidade de trazer a obra de Bello à cidade, pela primeira vez. “Esse trabalho, mesmo sendo de um pernambucano, pertence a nossa história, é nossa raiz. Ele pertence a Minas”, diz.

Sobre o mercado de artes e a produção brasileira – que circula, cada vez mais, por galerias de arte do mundo –, Fernandes é otimista, mas crê que o país ainda está no “pé da montanha”. “Temos um potencial grande, eu digo isso em direção à arte contemporânea. São necessárias as condições financeiras para produção e circulação desses artistas, mas o mais importante é contar com essas potências que temos por aqui. Vários pontos são determinantes para a ascensão e o sucesso de um artista”, finaliza.

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