Profecia de tempos violentos

Artista radicado em Paris, Sérgio Bello traz a Belo Horizonte exposição inédita, com releitura de Aleijadinho

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Profeta Isaías. Com a técnica acrílica sobre tela, artista faz releituras dos Profetas de Aleijadinho, em grande painel com dois metros de altura e 12 de comprimento. Os profetas gritam e prenunciam os conflitos entre os povos ao longo da História.
FOTO: SK DESIGN / DIVULGACAO
Profeta Isaías. Com a técnica acrílica sobre tela, artista faz releituras dos Profetas de Aleijadinho, em grande painel com dois metros de altura e 12 de comprimento. Os profetas gritam e prenunciam os conflitos entre os povos ao longo da História.

A sangrenta história dos homens ao longo dos tempos e da civilização ocidental é o assunto principal de uma conversa que começa com um interlocutor, que primeiro confunde o repórter com seu curador, Ricardo Fernandes, mas depois “desembesta” a falar sobre sua obra e, principalmente sobre sua exposição “Remake Aleijadinho, Gritos e Profecias”, a ser inaugurada amanhã, no Museu de Artes e Ofícios.

Trata-se do pernambucano Sérgio Bello, que, com cores fortes e pinceladas marcantes, se inspira nos 12 profetas – marco principal do Barroco Mineiro, presentes no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, na cidade de Congonhas – do mestre Aleijadinho para uma “refazenda” de suas obras. “Meu trabalho revela os profetas mais como homens do seu tempo e porta-vozes das questões que oprimiam o povo, do que como homens santos. Eles se aproximariam aos políticos, talvez”, filosofa Bello.

A obra principal da exposição, que traz mais de 150 trabalhos do artista, é um painel de 12 metros de largura por dois metros de altura. Nela, os 12 profetas aparecem no alto, gritando, e abaixo deles há cenas fortes de violência. “Há uma teoria que diz que os Profetas originais são, na verdade, os 12 inconfidentes (da Inconfidência Mineira). A marca da opressão nas esculturas (de Aleijadinho) está nos pergaminhos, com escritos em latim. No meu caso, cada profeta grita, anuncia o que está por vir”, revela o artista.

Além disso, o público confere toda uma sequência de pinturas e estudos preparatórios para se chegar ao grande painel, que dá nome à exposição. A sequência chamada de “Grito dos Profetas” foi pintada entre 1986 e 1989, quando o artista já vivia em Paris, onde reside até hoje.

Estilo. Comparando seu trabalho com o mestre do Barroco, o artista pernambucano lembra os períodos (diferentes) de cada artista, mas a temática próxima. “É um trabalho contemporâneo. Não só no sentido formal, mas também nas temáticas. O estudo que faço entre o Eros e Thanatos, de Freud, o amor e o desamor, claro e escuro, bem e o mal. Essas forças humanas que se contrapõem”, avalia.

Ao pintar a violência entre povos, Bello transforma seu trabalho em uma obra quase atemporal, já que infelizmente as guerras seguem fazendo suas milhares de vítimas, como se pode ver no noticiário todo dia. “Os profetas viviam onde é a Palestina, Israel, Iraque… regiões onde existem conflitos até hoje”, nos lembra ele. “Em 1989, era o bicentenário da Revolução Francesa e da mal sucedida Inconfidência Mineira. Havia uma relação direta da minha obra com Aleijadinho. Além disso, eu havia saído do Brasil no fim dos anos 1970, quando ainda tínhamos a opressão da ditadura militar. Hoje, celebramos os 200 anos de Aleijadinho e lembramos os 50 anos do Golpe Militar e também vemos esse confronto entre Palestina e Israel, na Síria. Meu trabalho é tão antigo quanto o Velho Testamento e tão atual quanto o noticiário. Parece que os gritos dos profetas não foram ouvidos”, completa.

O homem (oprimido), mais uma vez, parece ser a motivação principal do artista, que se exime de um posicionamento político. “Não é de esquerda, nem de direita. É uma obra humanitária, engajada. O que me interessou foi interpelar – não interrogar, porque não tem a mesma força – até de uma maneira jurídica pelos direitos dos homens. É como se eu fosse fruto dessa angústia. Então, o grito se renova. É o grito de um chileno na ditadura de Pinochet, de um negro sul-africano, que sofre com o apartheid. Como se eu encarnasse a dor de outros. Os gritos de outrora são os gritos de agora”, ressalta ele.

Pessimista? O trabalho virulento, sangrento e pautado pelo conflito de Bello pode deixar transparecer uma faceta pessimista do artista. “Minha obra é uma maneira de pintar essa violência entre os homens, essa é a minha intenção como artista. É um trabalho trágico, dramático, mas não é pessimista. Tampouco é otimista, porque é uma crítica à opressão e traz uma reflexão. É complexo, mas não é complicado. Deu para entender?”, finaliza ele – se desculpando pela eloquência (com impressionantes 40 minutos de telefone), a confusão da quantidade de coisas que disse e convidando todos para sua exposição. “Depois de ouvir (ler) toda essa história sobre meu trabalho, não faz sentido não ir conferir se tudo que te disse está lá de fato, certo?”. Não, não faz.

Agenda

O quê. Exposição “Remake Aleijadinho, Gritos e Profecias”, de Sérgio Bello.

Quando. De amanhã até dia 12 de setembro

Onde. Museu de Artes e Ofícios (praça da Estação)

Quanto. Gratuito.

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