O problema do futebol nacional está realmente nas categorias de base?

Antes do vexatório 7 a 1 no Mineirão, as categorias de base da seleção brasileira já davam sinais de que o futebol nacional não era mais o mesmo

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

Com grande atuação, Alemanha triturou o Brasil nesta terça-feira
Jefferson Bernardes/VIPCOMM
Com grande atuação, Alemanha triturou o Brasil nesta terça-feira

Na via-crúcis da seleção brasileira rumo ao Mineirão antes de ser goleada pela Alemanha por 7 a 1, justamente em uma semifinal de Copa do Mundo, uma imagem chamou atenção. Na saída do túnel que liga as avenidas Bernardo Vasconcelos e Américo Vespúcio, um grupo de crianças se divertia jogando futebol em um campinho de terra, com traves improvisadas, feitas de pedaços de madeira retorcidas. Enquanto o ônibus da seleção passava, os meninos continuaram ali, apenas correndo, brincando de ser, quem sabe, um daqueles ídolos que passava logo ao lado.

Pela paixão do povo, não há muitas dúvidas de que o Brasil é o país do futebol. Mas esta relação com o esporte bretão sofreu algumas fissuras pós-Copa, principalmente quando os assuntos são a seleção brasileira e o que de novo o futebol praticado no país pentacampeão poderá apresentar ao mundo futuramente. É justamente neste ponto que as categorias de base assumem um papel critico tanto para o bem quanto para o mal da modalidade nº1 do Brasil.

Antes do vexame na Copa, as categorias Sub-15, Sub-17 e Sub-20 da seleção já davam seus sinais de alerta. Dificuldades para triunfar sobre rivais até então ‘tranquilos’, até que vieram as derrotas, uma eliminação na primeira fase do Sul-Americano, uma goleada inexplicável para os EUA no Sub-15, e o Brasil, campeão mundial no Sub-20 em 2011 sequer conseguiu classificar-se para defender o título dois anos depois na Turquia.  No entanto, para quem está envolvido diretamente no futebol de base, os resultados adquiridos pela seleção nestes últimos anos não refletem fielmente o trabalho que é desenvolvido nos clubes do país.

“A seleção brasileira não é parâmetro para analisarmos a base do Brasil. O problema do futebol nacional são os conceitos antigos dos treinadores antigos”, afirma André Figueiredo, diretor das categorias de base do Atlético.

“A seleção vem acumulando péssimos resultados, mas como que as pessoas explicam quando a categoria de base do Atlético viaja até a Alemanha e vence o Borussia Dortmund duas vezes? Tem algo de errado no que está acontecendo e o problema não é dos clubes. Temos os melhores jogadores do mundo, eles são bem formados. Precisamos mudar o conceito”, completa o dirigente, que trabalha com a base alvinegra há dez anos. “Se estamos tão ruins como os analistas de futebol dizem, como é que Cruzeiro e Atlético chegam a 90% das semifinais e finais de torneios dentro e fora do Brasil?”, indaga Bruno Vicintin, superintendente das categorias de base do Cruzeiro. “Lógico que o trabalho com a base não está todo certo, mas também não está tão ruim como as pessoas falam”, conclui.

Comparações com outros países

Para quem trabalha com a base, as comparações com os projetos desenvolvidos em outros países, principalmente na Europa, têm irritado bastante. Na visão dos dirigentes, não há como traçar avaliações sem que as pessoas saibam realmente o que está acontecendo dentro dos clubes brasileiros. “A cada quatro anos as idéias mudam. A bola da vez é a Alemanha. Eles têm muito menos matéria-prima do que nós, e é claro que tinham que aproveitar todo o talento desta geração. Se as pessoas não tiverem ciência do planejamento, o futebol brasileiro vai viver de ventos de doutrina. Se o Felipão não conseguiu dar liga a esta seleção na Copa, a culpa não é dos jogadores jovens. Não é da base. A culpa é exclusivamente do treinador”, destaca André Figueiredo.

“Na Alemanha, começa a se trabalhar com crianças a partir dos 8 anos, e aqui no Brasil aos 13. A lei não permite, e muitos destes meninos chegam aqui com certas deficiências. Precisamos começar o trabalho com estes atletas o mais cedo possível”, aponta Bruno Vicintin.

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