Três contra um

iG Minas Gerais |

O debate entre candidatos ao governo de Minas Gerais, organizado pela Band Minas na quinta-feira, se transformou num cerco ao representante do PSDB, Pimenta da Veiga, que saiu atordoado. No campo de batalha, Fernando Pimentel ganhou alguns pontos que poderão se transformar em votos. A análise do evento serviu para expor claramente as tendências deste início de campanha. Carente de propostas, que ficaram vagas e incertas, sem passar de “intenções de avaliar e estudar, se eleito for”, mostrou o fogo cruzado e persistente que atingia o peessedebista, representante de Aécio Neves – a ele ligado por amizade sólida e pessoal desde os idos dos anos 80, quando o primeiro, como neto e secretário, e o outro, como líder na Câmara dos Deputados, eram os mais identificados escudeiros de Tancredo Neves. Nos últimos 30 anos os dois tancredistas caminharam no mesmo comboio e sempre unidos. Falar bem de um é falar bem do mesmo “ideal” de um grupo seleto que ainda domina a política de Minas desde 2002. Atingir qualquer que seja dos dois neste momento se reflete no outro. Pimenta da Veiga não imaginava, já a partir do primeiro debate e da primeira pergunta, enfrentar artilharia tão pesada e a exploração de equívocos e falhas que em grande parte não lhe dizem respeito. Pimentel se descolou de Dilma, mas Pimenta está costurado em Aécio e Anastasia. Com desacertos expostos impiedosamente e acertos encobertos, o saldo se revelou negativo para o candidato Pimenta. Para quem desembarcasse em Minas na quinta-feira e assistisse ao debate, sem conhecer o que se passou por aqui nos últimos 12 anos, teria impressão de que o governo Aécio/Anastasia foi a pior era vivida pelos mineiros. Não é bem isso. Nas últimas pesquisas, Anastasia recolhe para o Senado uma preferência de mais de 50% dos votos “decididos”, e Aécio com larga margem ultrapassa Dilma Rousseff, igualmente, como ele, nascida em Belo Horizonte. Pimenta da Veiga foi e será espremido nos próximos debates. Pimentel ainda não precisará se expor ao trabalho mais pesado, tem quem já o faça. Ainda com o tempo distribuído em quatro fatias iguais, entre PT, PSDB, PSB e PSOL, três dessas, ou 75% do total do tempo, serão desfavoráveis ao PSDB. Acentuadamente desfavoráveis. A tônica da propaganda televisiva seguirá a tendência mostrada pelo debate da Band. Três atacantes de um lado e um só goleiro do outro, sem zaga e possibilidade de sair da sua área. Destacaram-se pela contundência as intervenções de Tarcísio Delgado, do PSB, partido, em princípio, “aliado” do PSDB na empreitada declarada de tirar Dilma do governo federal. A situação aqui, em Minas, se inverteu, e a aliança é para tirar o PSDB do poder exercido por 12 anos. O acerto nacional sofre assim pressão, como mostrou a primeira investida de Tarcísio Delgado, questionando Pimenta da Veiga pelo “distanciamento” do Estado com uma vida profissional consolidada em Brasília e Goiás. Aproveitou-se também para dar a Aécio apelido de “carioca”. O tucano pasmou por alguns intermináveis segundos, deixando a impressão de que estava “à procura” de uma resposta que nunca imaginou. Tarcísio (PSB) não esconde nas entrevistas que a sua é uma candidatura antitucana e que apoiará Pimentel (PT) num eventual segundo turno, assim como caminhará o candidato do PSOL, Fidélis Alcântara. Mais que um aliado do PSDB, o PSB surge como uma lança no costado de Pimenta da Veiga e uma dificuldade inesperada para o próprio Aécio. O debate serviu mais para desmerecer os governos tucanos. Ponto questionável. Também as perguntas dos espectadores eram boas, mas apareceram expondo apenas reclamações e críticas ao governo do PSDB. Essas perguntas eram difíceis de se transformar numa oportunidade de apresentar propostas estaduais e nem foram aproveitadas para isso. Espetacular, entretanto, a resposta do candidato do PSOL, Fidélis Alcântara, que tinha na ponta da língua, sem um titubeio, os detalhes de Uberaba. A tabelinha entre os três adversários de Pimenta serviu para pintar em todos os tons de cinza os governos do PSDB. Pimentel ganhou confiança nesse primeiro embate e tem tudo para solicitar mais oportunidades como essa, contra um adversário sem zaga à frente da rede tucana. Lamentava-se ao fim do debate que o cerco cerrado feito aos candidatos do PSB, como Marcio Lacerda, que seria mais “indulgente” com Pimenta e com o PSDB, levou Eduardo Campos, “por exclusão” de candidatos abatidos pela artilharia de Danilo de Castro, a optar por Tarcísio Delgado, um desafeto do aecismo. O PSB, que estaria alinhado ao PSDB em Minas, está exatamente alinhadíssimo com Pimentel e disposto a dificultar aqui e fora a vida do PSDB. O jogo apenas começou; nos comitês as estratégias sofrerão certamente alterações substanciais.

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