Eficácia do canabidiol dá força a famílias e sensibiliza Justiça

Caso de Anny, 6, puxa fila de 17 famílias com ação judicial pelo direito de importar derivado da erva

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Pais de Anny Fischer continuam na luta para que a importação do CBD se torne menos burocrática e pela regulamentação da substância
Arquivo pessoal
Pais de Anny Fischer continuam na luta para que a importação do CBD se torne menos burocrática e pela regulamentação da substância

Dezoito famílias brasileiras já podem importar legalmente um remédio à base de canabidiol para suas crianças. Mais 17 processos, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), estão aguardando a apresentação de documentação do paciente para a concessão da autorização. Outras tantas famílias importam ilegalmente o produto para dar a suas crianças.  

Feito a partir de uma cepa da cannabis – ou, popularmente, maconha –, esse remédio não é regulamentado no Brasil. Mas pode ser o limite entre a vida e a morte para milhares de pacientes com síndromes graves. Gustavo Barbosa Guedes, de um ano e quatro meses, era portador da síndrome de Dravet, que causa convulsões graves, e morreu em junho. A autorização da Anvisa para que a família importasse o remédio demorou a chegar, e o menino só conseguiu usar o produto por dez dias – insuficientes para que ele pudesse ter melhoras.

“Os principais efeitos comprovados do canabidiol são a capacidade de controlar a hiperatividade neuronal, controlando as convulsões. Ao mesmo tempo, ele ainda protege o cérebro (veja arte), coisa que os outros anticonvulsivantes não fazem”, explica o neurocientista Renato Malcher, professor do departamento de ciências fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB). Malcher, que é co-autor do livro “Maconha, Cérebro e Saúde”, afirma ainda que a substância é uma esperança revolucionária para o tratamento do autismo.

Um caso de sucesso do uso de canabidiol que ficou famoso no Brasil é da menina Anny Fischer, 6, primeira a conseguir a autorização da Anvisa para importar o remédio, em abril deste ano. “A Anny nasceu com uma síndrome rara, a CDKL5 (causadora de epilepsia grave). Aos 45 dias de vida, teve sua primeira convulsão, e aí começou nossa luta. Tentamos tudo que nos foi recomendado pelos médicos, mas nada adiantava. Ela tinha de 60 a 80 crises por semana, pesava menos de 12 kg e era uma boneca em cima de uma cama. Agora, (depois de dez meses tomando o remédio), ela está ótima, com 17 kg, alegre, não teve mais crises”, conta Norberto Fischer, pai de Anny.

Pesquisas com a substância não são permitidas no país, mas os próprios pacientes relatam as melhoras. “Clinicamente, os médicos estão acompanhando pacientes que usam a maconha medicinal e veem que eles começam a dizer que se sentem bem. Os próprios pais estão dizendo para a sociedade que seus filhos estão reagindo bem com o canabidiol”, analisa André Kiepper, gestor de saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Ele, que é autor da proposta popular sobre legalização da maconha em tramitação do Senado, é um defensor da erva. “Do ponto de vista da saúde pública, é vantajoso (legalizar), porque a proibição da erva está trazendo mais danos do que a maconha em si. Cada vez mais se conhecem os efeitos medicinais dela, e o que se sabe hoje é que as contenções às drogas perderam a legitimidade, diante de convenções que definem os direitos humanos. Estamos vivendo um paradoxo no momento”, conclui.

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