EUA fecham cerco à imigração ilegal de menores de idade

“Eles vão imigrar novamente a menos que haja algo aqui que valha a pena”, diz diretora de ONG

iG Minas Gerais | Randal C. Archibold |

Segurança. Policial questiona mulher sobre os documentos de uma criança pequena que a acompanha para área próxima a fronteira
Ian Willms / The New York Times
Segurança. Policial questiona mulher sobre os documentos de uma criança pequena que a acompanha para área próxima a fronteira

San Pedro Sula, Honduras. A onda de imigrantes menores de idade da América Central que assolou os Estados Unidos nos últimos meses, gerando uma crise humanitária, dá sinais de estar diminuindo. As empresas de ônibus de Honduras dizem que já notam uma redução no número de crianças desacompanhadas rumo à fronteira, a polícia deteve alguns jovens nos pontos de verificação e a patrulha norte-americana registrou uma queda nas apreensões de crianças e famílias no Texas, aonde os imigrantes não param de chegar há meses.

Desde outubro, foram 57 mil jovens sem família detidos ao longo da fronteira do sul dos EUA, o dobro do volume do mesmo período em anos anteriores.

É muito cedo para dizer com certeza se a imigração em massa minguou, mas as autoridades esperam que ela esteja pelo menos diminuindo em resposta às iniciativas oficiais de impedir que o fluxo se torne hábito e à constatação de que a viagem é arriscada e que, no fim das contas, é muito pouco provável que encontrem refúgio nos EUA.

Em julho, o posto da Patrulha de Fronteira em McAllen, no Texas, registrou queda no número de pessoas detidas. Em uma semana de julho, havia cerca de 500 estrangeiros presos, comparado com o dobro no mês anterior.

Além disso, os EUA também começaram a acelerar as deportações dos pais com crianças que chegaram recentemente ao país; só neste mês já foram 80 pessoas, em dois aviões, de volta para Honduras, com outros voos programados para Guatemala e El Salvador.

Muitos dos imigrantes juram não desistir e repetem a tentativa, até várias vezes, antes de finalmente conseguir entrar nos EUA; mas há também aqueles que viajaram com crianças, e os próprios jovens, que se surpreenderam com as dificuldades e o custo inesperado da jornada.

“Eu não vou tentar nunca mais”, afirma Victoria Cordova, 30, deportada dos EUA com a filha de 9 anos. Ela conta os horrores da viagem, que incluíram abrigos lotados, pouca comida e uma profusão de documentos para serem assinados, incluindo um em inglês, que ela não entendeu, mas assinou mesmo assim.

Depois disso, ela, que estava em um abrigo no Novo México com várias outras mulheres e seus filhos, ficou sabendo que teria que embarcar de volta para Honduras, o que levou muita gente que estava ao seu lado às lágrimas.

Victoria voltou para casa, em um bairro perigoso de Tegucigalpa. Sua maior preocupação agora é devolver os US$ 6 mil que pediu emprestado aos vizinhos para cobrir os custos da viagem, incluindo vários membros de gangues; mas está desempregada.

Outras pessoas, incluindo crianças que foram enviadas para o México – cujas autoridades também aumentaram o número de deportações – disseram que gostariam de tentar outra vez, mas que não tinham dinheiro e ficaram desanimadas com a viagem.

Orlin Flores, 14, estava tentando se encontrar com os pais, na Califórnia, mas foi detido poucos dias depois do início da jornada e também deportado. “Não sei se faria de novo; além de morrer de medo, não tinha grana para dar aos policiais para me soltarem”, reclama ele, referindo-se à propina que muitos têm que pagar ao longo do caminho.

Apesar das medidas que os países de origem dos imigrantes tomam para impedir o movimento, os assistentes sociais que os recebem de volta acreditam que muitos vão tentar driblar os obstáculos legais novamente. A maioria dos deportados e seus defensores se mostra cética em relação às promessas do governo de oferecer-lhes bolsas de estudo e empregos para impedir que fujam.

“Eles vão imigrar novamente a menos que haja algo aqui que valha a pena – emprego, educação, o fim da violência”, diz Sor Valdette Willeman, diretora do Centro de Assistência aos Imigrantes, ONG hondurenha que ajuda os deportados nos aeroportos. “Se não tiverem nada disso, vão tentar de novo, com certeza”.

Risco maior

Fronteira. Com o controle maior, alguns imigrantes podem estar evitando as rotas mais conhecidas, se arriscando ainda mais em caminhos remotos e perigosos para evitar serem pegos.

Países de origem endurecem fronteiras para evitar viagens San Pedro Sula. Honduras, fonte da maior leva recente de imigrantes jovens, vem dificultando a saída dos pequenos sem autorização, proibindo a venda de passagens com destino à fronteira para menores e designando uma unidade policial especial para patrulhar as rotas de ônibus e postos de fronteira mais usados. O México diz que tomará medidas para reduzir o fluxo de imigrantes, prometendo impedir as pessoas de pegarem carona nos trens cargueiros e reforçar o patrulhamento na fronteira. Comprometeu-se também a reduzir a corrupção entre os oficiais, mas não deu maiores detalhes. Já a Guatemala disse que vai aumentar o número de policiais e soldados na fronteira. El Salvador começou uma campanha de conscientização pública para desestimular os pais a deixar os filhos viajarem sozinhos e pretende redobrar os esforços para prender os “coiotes”.

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