Tempo de rever os conceitos

Recentes resultados ruins das seleções de base do Brasil já davam sinal antes do fiasco na Copa

iG Minas Gerais | Josias Pereira |

Chove talentos. Garotos da seleção sub-17 durante treinamento na Granja Comary
Rafael Ribeiro
Chove talentos. Garotos da seleção sub-17 durante treinamento na Granja Comary

Na via-crúcis da seleção brasileira rumo ao Mineirão antes de ser goleada pela Alemanha por 7 a 1, justamente em uma semifinal de Copa do Mundo, uma imagem chamou a atenção. Na saída do túnel que liga as avenidas Bernardo Vasconcelos e Américo Vespúcio, um grupo de crianças se divertia jogando futebol em um campinho de terra, com traves improvisadas, feitas de pedaços de madeira retorcidas. Enquanto o ônibus da seleção passavam, os meninos continuaram ali, apenas correndo, brincando de ser, quem sabe, um daqueles ídolos que passava logo ao lado.

Pela paixão do povo, não há muitas dúvidas de que o Brasil é o país do futebol. Mas essa relação com o esporte bretão sofreu algumas fissuras pós-Copa, principalmente quando os assuntos são a seleção brasileira e o que de novo o futebol praticado no país pentacampeão poderá apresentar ao mundo nos próximos anos. É justamente nesse ponto que as categorias de base assumem um papel crítico tanto para o bem quanto para o mal da modalidade esportiva número 1 do Brasil.

Sinal de alerta. Antes do vexame na Copa, as categorias sub-15, sub-17 e sub-20 da seleção já davam seus sinais de alerta. Elas tiveram dificuldades para triunfar sobre rivais até então fáceis, até que vieram as derrotas, uma eliminação na primeira fase do Sul-Americano, uma goleada inexplicável para os EUA no sub-15, e o Brasil, campeão mundial no sub-20 em 2011, nem sequer conseguiu classificar-se para defender o título dois anos depois na Turquia.

Difícil de entender. No entanto, para quem está envolvido diretamente no futebol de base, os resultados adquiridos pela seleção nesses últimos anos não refletem fielmente o trabalho que é desenvolvido nos clubes do país. “A seleção brasileira não é parâmetro para analisarmos a base do Brasil. O problema do futebol nacional são os conceitos antigos dos treinadores antigos”, afirma André Figueiredo, técnico das categorias de base do Atlético.

“O Brasil vem acumulando péssimos resultados, mas como as pessoas explicam quando a categoria de base do Atlético viaja até a Alemanha e vence o Borussia Dortmund duas vezes? Tem algo de errado no que está acontecendo e o problema não é dos clubes. Temos os melhores jogadores do mundo, eles são bem-formados. Precisamos mudar o conceito”, completa o dirigente, que trabalha com a base alvinegra há dez anos.

“Se estamos tão ruins como os analistas de futebol dizem, como é que Cruzeiro e Atlético chegam a 90% das semifinais e finais de torneios dentro e fora do Brasil?”, indaga Bruno Vicintin, superintendente das categorias de base do Cruzeiro.

“Lei Pelé é uma tragédia”, diz dirigente

Muitos jogadores despontam nas categorias de base de seus respectivos clubes, mas poucos conseguem se transformar, de fato, em grandes jogadores. Na seleção brasileira, a história não é diferente. Quase a totalidade dos jogadores campeões mundiais sub-20 ficou fora da Copa. Para Bruno Vicintin, o que prejudica bastante o trabalho é a Lei Pelé. “Hoje, muitos dos que criticam nosso trabalho foram ferrenhos defensores da Lei Pelé. Aos 16 anos, o menino precisa ter um contrato de três anos. Quando chega aos 19, ele já está livre para negociar, e o clube não ganha nada. Temos atletas na base que possuem três agentes, e seus direitos econômicos não são 100% do clube. A Lei Pelé é uma tragédia para o futebol de base”, conclui.

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