A diversidade sexual nas telas

Ricky Mastro - cineasta especialista em identidade LGBTTT

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

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Formado em drama pela Universidade de Washington (EUA), o cineasta brasileiro Rick Mastro trabalha com a visibilidade da comunidade Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBTTT) nas telas. Neste ano, participou do júri do prêmio Queer Palm, no Festival de Cannes. Com o Magazine, conversa sobre os meandros do cenário em que atua. 

Você tem um trabalho voltada à identidade sexual e à visibilidade da comunidade LGBTTT no cinema. Quais preceitos sustentam seu caminho?

Com o meu trabalho, quero apenas que a cultura e os personagens LGBTTT sejam representados na tela sem qualquer tipo de cacoete e estereótipo. Sem uma divisão entre tratar o tema e apresentar os personagens. Acha que denominar um filme como gay é criar um gênero e, consequentemente, contribuir para segregação dessas obras cinematográficas?

Claro que não. A segmentação existe para fazer o contrário, fortalecer o gênero, assim teremos uma força maior para criar fomento e meios de distribuição dessas obras, além de diminuir o preconceito. Por exemplo, outro dia estava conversando com uma professora simpática do ensino médio. Repito: uma professora que trabalha educando crianças. No meio da conversa, ela me disse: “Todas as crianças que são educadas por pais que têm o mesmo sexo serão como os pais”. Eu nem tive vontade de dizer algo para me defender, acabei terminando a conversa ali dizendo: “os meus pais são heteros e me criaram, eu não sou apenas cópia carbonada deles”. Como foi a experiência de participar do júri Queer Palm do festival de Cannes neste ano?

Cannes sempre é uma excelente experiência, pois é um lugar onde encontraremos com realizadores que por muitas vezes não vemos no Brasil. Tive a oportunidade de discutir cinema com várias pessoas que trabalham na indústria, conviver com gente que eu admiro, como o cineasta Bruce Labruce, e esbarrar em personalidades da indústria, como o cineasta canadense Xavier Dolan. Qual filme do gênero mais chamou sua atenção no festival?

O filme que mais chamou atenção pelo seu conteúdo histórico foi o inglês “Pride”, que venceu a Queer Palm. Um filme que ousou pela maneira de contar a história foi o “Party Girl”. E “Mommy”, do diretor canadense Xavier Dolan, foi genial. Em entrevista recente, você afirmou que era “hora de o cinema falar mais de travestis e transexuais”. O Festival de Cinema de Paulínia deste ano apresentou vários filmes voltados para drags, como o curta “O Clube”, de Allan Ribeiro, e “Jessy”, de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge. Você acha que vivemos um momento em que cada vez mais produções dessa temática têm oportunidade de ir para as telas?

Acho que sempre podemos ter mais e mais produções dessa temática, assim como filmes dirigidos por transexuais. Não tive a oportunidade de ver os filmes que você citou, mas vi “O Coração do Príncipe”, do trans brasileiro Caio Ryuichi Yossimi. No Instagram, ele se define como ilustrador, animador, artista de make-up, fashionista, drag princess. Isso não é lindo? O filme é uma animação incrível, muito bem feita e que todos devem ver independentemente da idade. Mesmo assim, acho que ainda precisamos de mais e mais diversidade em nossa indústria. Em que pé estão as produções brasileiras que se concentram na temática LGBTTT, comparadas com as do restante do mundo?

Recentemente bons filmes têm chegado ao cinema brasileiro, como “Praia do Futuro”, “Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho” e “Tatuagem”. Não só por eles, mas acho que estamos em um bom momento, falamos de temas maduros com personagens que já não vivem aquele momento de sofrimento, de culpa, de medo. Nessa área, os filmes de diferentes países acabam representando como a sexualidade é encarada por lá. A produção de cada país delata a condição que a comunidade vive naquele lugar. Mas, em geral, estamos indo bem e fico otimista porque cada dia o nosso cinema e a nossa sociedade estão melhor. Você acha que o fato de filmes de temática LGBTTT, com exceção de comédias com personagens estereotipados, não terem aceitação e, por vezes, nem chegarem às salas comerciais são reflexos do pensamento predominante das pessoas de nossa sociedade?

Acho que o problema de distribuição de filmes nacionais transborda não apenas o cinema LGBTTT, mas todo o nosso cinema, e não vou usar o velho discurso de realizador que a culpa é do sistema, porque não é totalmente. Posso aceitar como parte da culpa, mas o realizador precisa pensar desde a elaboração do filme, como e onde esse filme será exibido, algo que é bem complicado. Percebo que o realizador tem tanta ansiedade em fazer o filme que muitas vezes esquece essa questão que é bem complicada. Há atualmente maior apoio financeiro de empresas em produções do gênero?

Se há, estou tentando descobrir, e se alguém sabe por favor me avise, pois estou nos preparativos da pré-produção do meu filme e gostaria muito de saber quais são as empresas que gostariam de investir nesse mercado. Aproveito aqui para dizer para elas que vale a pena. E por que vale a pena?

Porque é um mercado que ainda é subexplorado. E, no meu caso, acredito e muito na força que o meu filme terá quando chegar nas telas. Você se refere a seu primeiro longa, “Jogos da Mente”, não é? Ele se passará em uma comunidade de soropositivos que “não são vistos”. Por que decidiu trabalhar com esse tema?

A sociedade não quer vê-los porque não quer lidar diretamente com a problemática da “soropositividade”, acha melhor assim. Decidi tratar esse tema de maneira normativa, os personagens acontecem de serem soropositivos, pois a vida é assim. Percebi que as novas gerações não percebem que o vírus existe e a maneira mais simples de evitá-lo é usar a camisinha. Recomende dois filmes que contribuem tanto para formação de identidade LGBTTT quanto para a história do cinema pela qualidade de produção.

Acho que o primeiro é “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, do Daniel Ribeiro, por ser atual, dialogar com a juventude e ter feito história no cinema independente nacional com mais de 200 mil espectadores em sua estreia. Tem também “Estranho no Lago”, de Alain Guirade, por normatizar a sexualidade e transformá-la em um elemento de suspense. O interessante desse filme é que ele permite inúmeras leituras e foi um grande sucesso dentro e fora da França, país onde foi produzido. E dois filmes que prestam um desserviço à causa LGBTTT…

Acredito que todo filme que apresenta personagens LGBTTT estereotipados, cheios de cacoetes e que use da chacota e de escárnios para mostrar-nos na tela faz um desserviço à causa LGBTTT. Mas esse tipo de personagem não foge da nossa realidade. Quero dizer, há gays cheios de cacoetes. Por que então o dessevirço?

Como há heteros cheio de cacoetes também. Mas, para não parecer genérico na resposta, vamos a uma outra opção: as pessoas que se utilizam de cacoetes e que podem reforçar o estereótipo do gay sempre engraçado e de bom humor podem estar fazendo isso apenas para sobreviver em um mundo que pode ser cruel com aqueles que são diferentes.

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