A simples arte de matar... a literatura - Raymond Chandler

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Pobre Virgílio! Vivesse hoje em dia, não lhe bastaria uma cara bonitinha para se tornar famoso
Intervenção sobre imagem de Virgílio enquanto jovem
Pobre Virgílio! Vivesse hoje em dia, não lhe bastaria uma cara bonitinha para se tornar famoso

Em 1944, ou seja, há 70 anos, o então quase desconhecido Raymond Chandler publicou importante ensaio em que discutia ficção e realidade: “A simples arte de matar”. Para quem não sabe, Chandler é um dos três principais autores de “histórias de detetive”, com Georges Simenon e Rex Stout completando a trindade. Existe uma diferença fundamental entre esses e a maioria dos outros: eles sabem escrever. Por isso – e só por isso – podem ser inscritos no cânone dos grandes escritores, qualquer que seja o gênero, se é que isso importa. Para se ter uma ideia de como rótulos são insuficientes, no gênero que chamamos ficção científica só existe um autor que o extrapola: Ray Bradbury. Os demais são apenas autores de ficção científica, mesmo quando bons ou mesmo quase ótimos. Quanto a leitores, vale o escrito: até alguém se tornar autossuficiente, milhares de títulos terão de passar debaixo de olhos atentos. A grande maioria dos livros é apenas lixo e desperdício de papel. Por isso também, desconfio de leitores (ou escritores) que não conseguem gostar de Rimbaud, Proust, Joyce, Faulkner ou, entre nós, de Simões Lopes Neto, Augusto dos Anjos, José Agrippino de Paula e Valêncio Xavier. PINGOS NOS IS “A ficção, em qualquer forma que se apresente, sempre pretendeu ser realista. Os antigos romances que agora se encontram fora de moda, que parecem empolados e artificiais a ponto de beirarem o burlesco, não pareciam assim às pessoas que primeiro os leram. Escritores como Fielding e Smollett conseguiam parecer realistas, na moderna acepção da palavra, porque lidavam em grande parte com personagens desinibidas, muitas das quais estavam cerca de dois passos à frente da polícia, mas as crônicas de Jane Austen, sobre pessoas altamente inibidas colocadas dentro do cenário formador da nobreza rural, parecem suficientemente reais em termos psicológicos.” Complicado? Nem tanto. Este início é importante para a continuação. “Também existe um bocado desse tipo de hipocrisia social e emocional no mundo de hoje (1944). Acrescente-se a isto alta dose de pretensão intelectual e temos o tom da página literária em nosso jornal diário e a atmosfera compenetrada e ilusória que respiram certos grupos de discussão em pequenos clubes.” CHEGANDO LÁ “Estas são as pessoas que fabricam os best-sellers, trabalhos promocionais baseados numa espécie de apelo esnobe, cuidadosamente escoltados pelas focas treinadas da irmandade da crítica e amorosamente cultivados e regados por certos grupos de pressão tremendamente poderosos, cujo negócio é vender livros, embora eles preferissem que pensássemos que estão promovendo a cultura. É só atrasar um pouco os pagamentos e a gente logo descobre quanto idealista eles são.” O COMEÇO DE TUDO A longa citação se justifica: publicado há 70 anos, o ensaio faz referência a autores que ninguém mais lê, com exceção talvez de Jane Austen, que ainda assim parece pedante e artificial, se o leitor não é um bom leitor, capaz do distanciamento necessário à compreensão e fruição tanto da linguagem quanto do comportamento da época. O que necessariamente envolve altas doses de cultura literária, histórica, psicológica e social, entre outros atributos. Isso explica porque bons leitores sempre foram escassos, e não só em literatura. A bagagem cultural precisa ter solidez, e isso não se capta no ar. Aquele que é considerado o primeiro romance, o “Satíricon”, de Petrônio, data do século I d.C. Para chegar ao primeiro grande romance moderno, o “Dom Quixote”, precisamos de 1.500 anos de elaboração e requinte, passando por inúmeras obras-primas de poesia, bem mais conceituada até a Idade Média do que a prosa. Homero, Virgílio, Petrarca, Dante, Boccaccio e Camões pavimentaram a estrada que levaria à sofisticação de Cervantes, mesmo que seu monumental romance não passe de uma paródia genial dos romances de cavalaria, os best-sellers da época. Depois de Cervantes, tudo se tornou mais fácil. E também mais difícil. FÁCIL E DIFÍCIL Raymond Chandler só publicou o primeiro livro ótimo, “O Sono Eterno”, em 1939, aos 50 anos. Como boa parte dos escritores norte-americanos, foi soldado, jornalista, empresário e detetive, entre outras atividades. Enquanto isso, lia e aprendia, tendo como mestre absoluto Dashiell Hammett, o mais paparicado dos escritores “noir” de então, que misturava em seus contos o máximo de violência com a marginalidade radical tanto de bandidos quanto de detetives, numa linguagem seca, direta e ágil. Os primeiros contos de Chandler são Hammett sem tirar nem pôr. Certamente por isso, foi aceito na revista “Black Mask”, que Hammett dirigia, e passou a viver de e para a literatura, só possível em países do primeiro mundo. E, certamente por passar a desfrutar de muito tempo livre, foi capaz de desenvolver estilo próprio, numa deliciosa combinação de humor, autoironia, perspicácia e densidade narrativa. CHEGANDO AO PONTO Ao escrever, “grupos de pressão tremendamente poderosos, cujo negócio é vender livros, embora eles preferissem que pensássemos que estão promovendo a cultura”, Raymond Chandler, que ainda não publicara nenhum de seus grandes livros, sabia o que dizia. Afinal, vivia mergulhado no submundo da indústria cinematográfica (chegou a ser roteirista e teve todos os seus livros filmados). O que não poderia prever – e o deixaria espantado – foi o rumo que as coisas tomaram com o surgimento da televisão e, aí sim, com a indústria de entretenimento dando as cartas, além de blefar como regra e falsificar por princípio. Naquele tempo, seria impossível a um Paulo Coelho não digo ficar milionário, mas pretender ser aceito como bom escritor.

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