Por um Dia dos Pais diferente

iG Minas Gerais |

Desculpe a falta de jeito, meu filho, mas hoje, se pudesse, pediria apenas um tempo neste mundo tão repetitivo e pasteurizado. Tudo me parece tão igual, tão entediante e tão monótono que, por gentileza, não se preocupe em dar presentes ou sair para almoçar fora. Aliás, que chatice o tal dia de alguma coisa. Convido-o a buscar algo diferente... Estranho que novidades tenham prazo de validade tão rápido e que, no momento seguinte, não há mais nada de novo. Apenas a velha ansiedade por algo realmente surpreendente e original. Conte-me alguma história marcante, um fato emocionante vivido e que se tornará uma memória na sua linha de tempo. Não, por favor, não me mostre uma nova selfie, nem dedilhe seu smartphone para mostrar a piada da vez ou um vídeo viral. Aliás, emudeçamos nossos eletrônicos. Vamos nos comunicar, olhar nos olhos, confessar nossa incompetência em nos abrirmos, criar intimidade, ter comunhão de ideias, vivermos comunitariamente. Como aconteceu esse distanciamento se habitamos o mesmo espaço? Qual a senha para entrar no seu universo virtual, que o faz desaparecer no interior de seu quarto, enquanto num espaço paralelo hábito um mundo real, no sofá da sala, ansiando um lapso de tempo, onde possamos nos encontrar além de datas tão banais como o tal Dia dos Pais? Tudo tão repetitivo, tão rotineiro e tão sem diálogo. Telas escravizantes, vício tecnológico e um clima de “aí que saco!”, quando reúne-se para o almoço do Dia dos Pais. Que pena habitarmos um mundo de relações descartáveis. Usou, joga fora. Perdeu a graça, troca. É o império da superficialidade, onde a perda da profundidade nas relações, soma-se à ausência de densidade nos diálogos, originando um vazio nas relações interpessoais. Surpreenda-me filho ao partilhar comigo seus temores, ao abrir seu coração e franquear seus pensamentos. Nunca se esqueça de que o exercício da arte de criticar e ser criticado é a matéria-prima para o amadurecimento. Abra sua mente e deixe fluir pensamentos, sentimentos, desejos. Sinto falta de filosofar, mesmo que rasteiramente, de ver o tempo passar ao lado de quem amo, de partilhar uma paisagem deslumbrante. Afinal, sempre me orgulhei de ser um pai ridículo, que assume ser romântico, que adora ver o nascer ou o pôr do sol. Sinto falta de adorar falar do que é quântico, pesquisar sobre histórias da civilização, trazer à tona curiosidades e conhecimentos dos nossos antepassados. Adoro contar histórias de um tempo em que usávamos os cinco sentidos: a visão que coloria o mundo; a audição que registrava os sons que faziam a trilha sonora de nossas vidas; o paladar marcante de salivantes almoços de domingo na casa da vó; o olfato da dama-da-noite, impregnado na saudade do primeiro beijo; o tato do toque excitante da pele da amada, que enlouquecia de emoção. Meu Deus, como éramos sensoriais nesta coleção de prazeres, que era um brinde à vida! Ok, sei meu filhão, que seu olhar é escravo das telas e isso o prende a um mundo de duas dimensões. Falta-lhe a profundidade, a percepção, o dar-se conta de uma pobreza existencial, que habita nossa vida e nos rouba a magia dos encantos que nos rodeia. Agradeço o presente de me ouvir nesse dia, mesmo que discorde ou não entenda minhas palavras. Pois só te darei como herança três coisas sagradas: o exemplo de luta, a sabedoria que acumular na minha existência e o amor incondicional, ainda que distante.

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