Hora de repensar as novelas

Qual o novo caminho? Especialistas justificam queda de audiência e indicam necessidade de repensar o gênero

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Avenida Brasil”. Trama ágil teve vingança como motivação principal e, assim, atraiu o interesse constante de espectadores
globo / divulgação
“Avenida Brasil”. Trama ágil teve vingança como motivação principal e, assim, atraiu o interesse constante de espectadores

“Tenho que ir para casa ver a novela”. A frase, comum no dia a dia do brasileiro décadas atrás, anda em desuso, o que pode estimular uma reflexão sobre a situação que o produto vive atualmente.  

Desde 2004, a audiência das novelas vem caindo gradativamente. E há, pelo menos, dois fatores que podem estar contribuindo para essa queda. Com o advento da internet, surge uma nova maneira de ver TV, inclusive fora do horário de exibição, e que não é medida pelo Ibope. Ao mesmo tempo, pelo que indicam as redes sociais, a maioria das tramas não tem sido bem-recebida pelo público. Difícil avaliar qual das duas causas é a maior responsável pela queda da audiência. Isso é trabalho para especialistas.

O supervisor de conteúdo do Museu da TV, Elmo Francfort, acredita que as tramas das novelas mais recentes não têm a mesma profundidade que as do passado. “Numa hora de decisão, isso faz o telespectador optar por se dedicar a outros meios e fugir da televisão. O sucesso do Canal Viva é prova de que tem alguma coisa errada no ar, porque ele reprisa tramas de sucesso do passado e a audiência tem correspondido”, diz.

O momento de reinvenção não é novidade, mas que ainda não apresentou resultados totalmente eficazes. As duas apostas mais recentes que mais se aproximam do que seria essa “renovação” são “Meu Pedacinho de Chão” e “O Rebu”. Ambas saíram da padrão estético de novelas da Globo em quesitos como fotografia e caracterização, mas, principalmente, na forma de contar uma história, embora usem ingredientes típicos do folhetim.

Segundo o professor universitário e doutor em semiótica pela USP Conrado Mendes, esse é um caminho ideal para esse tipo de obra televisiva. “Para Edgar Morin (filósofo e sociólogo francês), cujo pensamento para compreender a engrenagem da TV ainda é muito atual, existem duas forças que atuam, cada qual para um lado distinto: a inovação e a repetição. Ou seja, a telenovela tem que andar nessa corda bamba, sabendo equilibrar esses dois elementos”, comenta.

Mesmo com os esforços dessas duas novelas, a constante rejeição do público aos títulos recentes – “Boogie Oogie”, do moçambicano Rui Vilhena, mal estreou na faixa das 19h e vem recebendo diversas críticas negativas – leva a crer que nenhum dos diretores e autores da Globo sabe ao certo o que fazer.

Porém, exemplos para melhorar as tramas não faltam. Um dos mais recentes é “Avenida Brasil”, novela que teve dos melhores desempenhos e repercussão nesta década, graças à capacidade de manter o interesse do espectador constantemente. “Essa novela introduziu uma narrativa rápida e, ao mesmo tempo, popular. Uma trama muito lenta, em que acontecimentos demoram muito a ocorrer, como foi o caso de ‘Em Família’, não costuma prender a atenção de uma geração nova de pessoas que estão fazendo mais coisas enquanto veem TV”, comenta Mendes.

Com mais de 40 anos de carreira, a atriz Renata Sorrah, que interpretou a vilã Nazaré, na exitosa “Senhora do Destino”, aposta na brevidade e na revisão da rotina para melhorar a qualidade da teledramaturgia. Dois fatores que, segundo ela, já estão sendo implantados pela Rede Globo. “De cara, temos que nos perguntar se dá para gravar 30 ótimas cenas por dia. Não dá. E acho que, se as novelas fossem menores, trariam melhores resultados, assim como se contassem com mais profissionais do cinema, como fez o ‘Rebu’ quando chamou Walter Carvalho (diretor de fotografia)”, opina.

Séries. Tanto o roteiro astuto, capaz de prender a atenção do espectador de “Avenida Brasil”, quanto a menor duração das novelas, citada por Renata Sorrah, são características de seriados norte-americanos. Produzido por temporadas, com número de episódios variável, esse formato cresceu em todo mundo no mesmo período em que as novelas começaram a despencar.

Essa agilidade da série tem sido referência de novos caminho para TV, mas, segundo Mendes, não se deve exagerar por causa de sua abrangência. “Uma telenovela é feita para um público de 40 a 60 milhões de telespectadores. Se a narrativa for rápida demais, pode, inclusive, espantar uma boa fatia de público que não vai entender a trama”.

Mendes chama atenção ao fato de atualmente as novelas também serem influenciadas pela ascensão da classe C. “Existe tanto uma aposta numa narrativa mais rápida, cuja inspiração são as séries de TV norte-americanas, mas também na representação de minorias (favelas, relacionamento de pessoas do mesmo sexo etc.), com um grau menor de estereotipia. Esse é novo mercado consumidor”, diz o professor.

Números. Para o especialista em teledramaturgia Nelson Xavier, os números divulgados pelo Ibope, porém, devem ser contestados. “O que aconteceu é que o público hoje tem outros vários meios para assistir às novelas, como tablets e celular. O problema é que o Ibope não quantifica as visualizações por meio desses aparelhos. Por isso, a tendência é – e venho repetindo isso já faz um tempo – que esses aparelhos substituam cada vez mais os televisores como forma de assistir à novelas. Consequentemente, a média divulgado pelo Ibope será sempre menor”, prevê.

O colunista de TV Flavio Ricco também concorda que os baixos números do Ibope estão sendo influenciados pela utilização de outras mídias. “É perfeitamente natural que isso aconteça”, diz.

Para o supervisor do Museu da TV, a quantificação do uso da segunda tela, “em que o telespectador assiste à TV e o conteúdo interativo é acessado a partir dela”, ajudaria a tornar o cálculo da audiência mais preciso, mas isso não acontece.

Termômetro As redes sociais são um meio para se avaliar parcialmente a repercussão de uma novela. Durante “Avenida Brasil”, vários memes de aprovação foram publicados com frases engraçadas de Carminha. Já em “Em Família”, os posts criticavam a trama com jogo dos 7 erros.

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