Glamour vintage do jazz

A cantora Taryn Szpilman, maior voz feminina do blues e do jazz no Brasil, encarna musical de Billie Holiday e prepara quarto disco solo

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Vintage. Taryn mescla em seu show moda e técnica vocal, tudo inspirado no jazz de 1930 e 1960
Rodrigo Castro
Vintage. Taryn mescla em seu show moda e técnica vocal, tudo inspirado no jazz de 1930 e 1960

A cantora carioca Taryn Kern Szpilman, 36, recentemente ganhou fama no imaginário infantil ao emprestar sua voz para a princesa “Elsa”, protagonista da animação “Frozen”, o desenho mais visto da história. Longe de pertencer ao mundo de contos de fadas da Disney, essa loira de 1,63 de altura gosta mesmo é de batom vermelho vibrante, vestidos da década de 1930 e carros antigos. Diretora artística da Orchestra Rio Jazz, uma das principais big bands em atividade no país, Taryn é considerada a maior referência de voz feminina do blues e do jazz no Brasil atualmente.

Prestes a se apresentar no I Love Jazz, ela prepara para o ano que vem o lançamento do aguardado musical em homenagem aos cem anos de Billie Holiday, além de produzir o quarto disco solo da carreira.

A história musical de Taryn está entrelaçada ao passado de seus avós – de origem russa, polonesa e alemã – que vieram para o Brasil entre os anos 30 e 40 se apresentar com orquestras sinfônicas. A cantora ainda carrega a herança de ser bisneta do famoso pianista judeu Wladyslaw Szpilman, que inspirou o filme “O Pianista” (2012), de Roman Polanski, vencedor de três Oscars.

Além disso, enquanto a figura do pai, o saxofonista Marcos Szpilman, fundador da Orchestra Rio Jazz, lhe apresentou a voz de Billie Holiday e o trompete de Miles Davis, a mãe foi responsável por influenciar a cantora com os filmes de Marilyn Monroe e o rock clássico do Led Zeppelin. “Toda a minha infância foi baseada em pilhas de discos de vinil de estrelas como Charlie Parker, Miles Davis e Billie Holiday, além das coleções de chapéus antigos, musicais das décadas de 1940 e 50. Sem contar que meu pai me deu um Porsh 1954 quando eu tinha 17 anos; dirigia loucamente pelo Rio sem habilitação mesmo”, diz Taryn.

Depois de sonhar em ser atriz e modelo, a cantora carioca descobriu a potência de sua voz aos 14 anos, ao se apresentar em um sarau do colégio cantando Aretha Franklin. Desde então, nunca mais parou de cantar. Antes de decidir definitivamente pelo jazz, Taryn esteve à frente da banda Eletro Fluminas, ao lado do produtor Marcio Lomiranda e do guitarrista Paulo Rafael, parceiro antigo de Alceu Valença. “Foi um som experimental que me enriqueceu muito, tínhamos de maracatu a eletrônico na banda, além de pitadas de blues e jazz. Isso me ajudou a encontrar o meu caminho”, lembra.

Com a morte do pai em 2011, Taryn assumiu a direção artística da Orchestra Rio Jazz, ao lado do marido, o renomado baterista Cláudio Infante. Desde então, a cantora herdou um acervo de 2.000 arranjos de jazz e blues-rock, que ela interpreta ao lado da big band composta por 19 músicos. No repertório, desde Tom Jobim, Ary Barroso e Pixinguinha, até Charlie Parker, Frank Sinatra e Stevie Wonder. “Meu pai deixou esse legado para mim e, antes de morrer, ele tinha dito que eu tinha encontrado minha verdade no jazz e no blues. E realmente a música negra é a minha paixão, o universo que domino e ao qual pertenço. Afinal, eu deveria ter nascido na década de 20”, brinca.

Projetos. Até o momento, a principal montagem da Orchestra Rio Jazz sob a direção de Taryn Szpilman foi o “Tributo a Billie Holiday”, apresentado em 2012. Sem grandes produções, o espetáculo trouxe basicamente Taryn, com a pele maquiada e figurino dos anos 40, interpretando a diva norte-americana. “Ali tivemos um estilo de show mesmo. Eu cantei umas dez músicas, tive ajuda do Fernando Torquatto para maquiar a pele com tom negro e ficar parecida com a Billie. De encenação e cenário, o espetáculo teve quase nada”, conta a cantora.

Previsto para reestrear ano que vem, “Tributo a Billie Holiday” vai se transformar em um musical completo, com cenário, figurino e texto sobre a vida da cantora, escrito por Taryn. A ideia é que, além de um espetáculo com interpretações de clássicos como “Don’t Explain” e “The Man I Love”, a montagem possa ampliar o conhecimento do público sobre quem foi Billie Holiday, a Lady Day, até hoje considerada a maior voz do jazz de todos os tempos. “Ela tem uma história forte de ter sido abusada sexualmente, passou por uma pobreza incrível, foi criada por pais adolescentes. Estou reescrevendo o texto para o musical e espero contar todos os detalhes sobre ela, além de criar uma estrutura grande de cenário, iluminação e dramaturgia”, diz.

O espetáculo terá direção de Mário Meirelles, que trabalhou como diretor de TV da apresentadora Xuxa, e deve estrear no primeiro semestre do ano que vem no Rio de Janeiro e em São Paulo. A partir do segundo semestre, deve seguir para pequenas temporadas em outras capitais, como Belo Horizonte.

Também previsto para o ano que vem, o quarto disco solo de Taryn Szpilman vai fechar uma trilogia dedicado a grandes nomes do blues e do jazz, de Aretha Franklin a Janis Joplin. Depois de gravar “Bluezz” (2008) e lançar “Negro Blue” (2011) com show no Rock in Rio, a cantora interpreta um repertório de 14 releituras que vão desde Led Zeppelin até Beatles, passando por Miles Davis e, claro, Billie Holiday. “Apesar de fechar uma trilogia com este disco, não pretendo cantar outros estilos, como às vezes minha mãe me questiona (risos). Como se uma voz bonita tivesse que cantar o pop para se consagrar. A minha verdade é o jazz e o blues. Disso não abro mão”. diz.

I Love Jazz

A cantora Taryn Szpilman se apresenta na praça do Papa, dentro do festival I Love Jazz, hoje, às 19h. Acompanhada do trio composto por Michel Barcelos (baixo), Bernardo Bosisio (guitarra) e Cláudio Infante (bateria), ela vai cantar um repertório dedicado ao bebop – uma das correntes mais famosas do jazz – e às grandes divas do gênero. No fim da apresentação, a cantora ainda deve ensaiar uma palinha da canção “Livre Estou”, interpretada por ela no filme infantil Frozen. “Talvez eu faça essa homenagem em arranjo de jazz inédito”, diz.

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