O que aconteceu a Zenóbio?

Grupo Teatro Público estreia neste sábado (9) o espetáculo “Saudade”, desenvolvido nas ruas do bairro homônimo da capital

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Morte. 

Grupo parte do desaparecimento de um corpo para explorar a geografia e os habitantes do bairro da Saudade, em Belo Horizonte
Naum Produtora
Morte. Grupo parte do desaparecimento de um corpo para explorar a geografia e os habitantes do bairro da Saudade, em Belo Horizonte

No último mês de março, o bairro da Saudade em Belo Horizonte foi pego de surpresa por uma situação incomum. Durante um velório rumo ao cemitério localizado ali, o corpo do morto Zenóbio de Andrade Reis Boaventura simplesmente desapareceu.

Nas semanas que se seguiram, houve quem dissesse ter visto o falecido caminhando pelas ruas do bairro. Pouco depois, cartazes de “procura-se” foram espalhados pelos postes da região em busca do corpo. Não demorou até que a família do morto invadisse o bairro, prometendo não sair até que ele fosse encontrado. E eventualmente foi: junto com seus amigos da boemia, bebendo e cantando uma vida bem vivida – e bem morrida.

Isso realmente aconteceu, mas foi tudo parte do processo de criação do novo espetáculo do grupo Teatro Público. A síntese desses três meses de intervenção e interação pode ser conferida a partir deste sábado, às 16h30, na peça “Saudade”, que será encenada pelas ruas do bairro todo sábado até o dia 27 de setembro.

“No nosso primeiro espetáculo, no bairro Lagoinha, já havia o Cemitério do Bonfim e, querendo ou não, a gente circulou um pouco em torno dele, por mais que o foco da montagem fosse outro”, conta o ator e diretor Marcelo Alessio, referindo-se à peça “Naquele Bairro Encantado”.

O interesse em abordar a temática da finitude da vida e as paisagens ligadas à morte foi plantado ali. E, associado ao objetivo de continuar trabalhando com a ideia de ocupação teatral de algum bairro da cidade, levou o grupo até o bairro da Saudade para investigar a “aura de morte que circunda aquele espaço”. “A diferença em relação ao espetáculo anterior é que, desta vez, a gente chegou ali com uma história e uma dramaturgia pré-definidas, que foram desenvolvidas por meio de uma estratégia”, explica Alessio.

Essa estratégia consistiu de quatro ações, em que os integrantes do grupo usavam diversos espaços do bairro – inclusive em torno do cemitério e dentro dele –, mapeando e interagindo com eles. A cada nova etapa, uma parte da história desenvolvia-se um pouco mais.

A primeira ação foi o fantasma de Zenóbio vagando pelo bairro. A segunda foi o surgimento, da noite para o dia, dos cartazes em todos os postes procurando pelo falecido. A terceira trouxe a família e as viúvas para o bairro. E a última, finalmente, reintroduziu o morto ao lado dos amigos boêmios.

“Os personagens andavam pelas ruas se relacionando com as pessoas e os espaços, e foi a partir desse diálogo e dessa forte interação com os habitantes da região que o espetáculo foi construído”, descreve o ator e diretor. Segundo ele, a habilidade de lidar com a imprevisibilidade dessas interações e a abertura ao jogo do acaso – e da reação da ficção à realidade – demandaram um forte trabalho de improvisação.

“As crianças e adolescentes brincando nas ruas reagiam muito fortemente às viúvas caminhando pelo bairro. Já os boêmios do bairro gostaram muito dos amigos do Zenóbio cantando samba e chorinho, celebrando. Neste sábado, isso faz parte do espetáculo”, descreve.

Máscaras. Contudo, para traçar uma linha divisória entre realidade e ficção, o grupo faz uso de máscaras, assim como em “Naquele Bairro Encantado”. “Se você olha e vê na rua alguém mascarado, sabe de cara que é uma ficção”, justifica Alessio.

Em “Saudade”, eles usam dois tipos diferentes de máscara. Para os véus e o luto da família de Zenóbio, o grupo se inspirou nas matrafonas da cultura popular portuguesa – homens que se vestem de mulheres e cobrem os rostos com panos, numa espécie de Carnaval. Já para os boêmios, foi feita uma releitura das máscaras tradicionais do teatro balinês, confeccionadas pelo professor Rafael Bottaro, da UFMG.

A clara inspiração da história em “Quincas Berro D’água” não é por acaso. Alessio afirma que surgiu quando o grupo começou a pesquisar sobre a morte, e incluiu também a literatura de Gabriel García Márquez. “Queríamos obras que tratassem o tema da morte de forma mais poética, fantástica e cômica”, diz o diretor, antecipando o que o público pode esperar.

  • AGENDA
  • O quê. “Saudade”
  • Quando. Neste sábado, às 16h30
  • Onde. Saída do Cemitério da Saudade – rua Cametá, 585, Saudade
  • Quanto. Entrada franca
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