Neto de líder de Avós da Praça de Maio elogia família que o adotou

Guido Carlotto afirmou nesta sexta-feira (8) que só soube que era adotado há dois meses apesar de suspeitar que sua identidade real era diferente há mais tempo, por "fatores intangíveis"

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

Guido Carlotto, neto da presidente da Associação das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, afirmou nesta sexta-feira (8) que só soube que era adotado há dois meses, apesar de suspeitar que sua identidade real era diferente há mais tempo, por "fatores intangíveis". "São ruídos na cabeça, borboletas fora do campo de visão, coisas que se sabe sem saber".

Ele citou, por exemplo, o fato de ter se tornado músico, enquanto os seus pais adotivos eram trabalhadores do campo. "Um casal me criou com amor, mas me destinavam à outra coisa. Eu terminei fazendo outra tarefa".

Ele afirmou que teve uma vida "feliz e maravilhosa" e que agora vai entrar nos livros de história, o que "é um peso bom para levar". O neto de Carlotto disse que não sabe qual foi o papel de seus pais adotivos no seu sequestro e que não tem memória nenhuma do que aconteceu.

A juíza Maria Servini de Cubría, que havia convocado o músico para depor como testemunha para tentar descobrir quem o levou quando era bebê. No entanto, Estela de Carlotto pediu para que se desse mais tempo para que seu neto fosse à Justiça e, nesta sexta, a juíza postergou a convocação.

O neto da principal ativista das avós da Praça de Maio falou publicamente do caso pela primeira vez. Em uma entrevista coletiva, ele afirmou que prefere ser chamado pelo nome de Ignacio, dado pelos pais adotivos. "Estou acostumado e quero seguir mantendo. Mas entendo que existe uma família que, há mais de 30 anos me chama de Guido".

Ele disse que decidiu falar publicamente sobre o caso para incentivar outras pessoas que têm dúvidas a respeito de sua identidade a buscar a associação das avós. "Entendo que estou contribuindo. Sei que, a partir do meu caso, muita gente se mobilizou."

Mais de uma vez, ele recomendou a quem não tem plena certeza de sua identidade,a procurar a associação para fazer um teste de DNA. "O processo é completamente confidencial. A não ser dessa vez", brincou.

Segundo a mídia argentina, a juíza Cubría vazou quem era o neto de Carlotto, e Ignácio passou a ser procurado por jornalistas. "Eu queria conhecê-los [sua família de sangue] antes de mostrar a cara. O processo é extraordinariamente cômodo, respeitável e rápido" garantiu.

O caso

Na última terça (5), Estela de Carlotto anunciou que um homem de 36 anos havia feito um exame de DNA e que, com 99,9% de chance, era o filho de sua filha, Laura de Carlotto, uma militante peronista que foi assassinada pela ditadura em 1977.

Os militares se apropriavam de filhos de militantes presos ou assassinados e os davam a outras famílias para criar.

As avós da Praça de Maio são o grupo formado pelos pais dos militantes perseguidos que se juntaram para procurar seus descendentes nas famílias postiças. Estela de Carlotto é a presidente da associação. Seu neto foi a 114ª pessoa descoberta.

Durante a entrevista coletiva, Estela ficou ao lado de seu neto, mas não deu declarações.

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