Bardo do Bar: Arcaica Palavra

iG Minas Gerais |

acir galvao
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O Arcaica Palavra estava sem movimento naquele fim de tarde, só eu e Seu Antônio, que, de pé, tentava achar nas estantes espaço para um Valter Hugo Mãe que tinha em mãos. Não é raro que seja assim, o misto de bar e sebo vazio, com poucos ou nenhum freguês no horário em que costumo ir, o que me apraz. Em várias oportunidades como essa me dedico a folhear o vasto acervo de livros, revistas e publicações em geral ou a jogar conversa fora com Seu Antônio, com quem, devido ao tempo e a assiduidade com que frequento o Arcaica Palavra, já criei aquele grau de intimidade que permite que fiquemos em silêncio um na companhia do outro sem embaraço.   Estava entediado, bebericando minha cerveja. Estiquei o braço na direção da estante mais próxima e peguei qualquer coisa para passar os olhos. Calhou de ser uma revista semanal de alguns meses atrás, que trazia, entre outras reportagens, uma, em que me detive, sobre a Comissão Nacional da Verdade ter assumido as investigações acerca do desaparecimento, durante o período da Ditadura Militar, do estudante paraibano Francisco das Chagas Pereira, ligado ao Partido Comunista. Fiz algum comentário desinteressado sobre aquele período sombrio da história do país, meio dirigido ao Seu Antônio, mas também ao vento. Ele apenas pigarreou e ficou em silêncio. Tirei os olhos da revista e notei que o semblante do velho português, antes sereno e iluminado, havia se tornado carregado e cinza. Não dei trela, achei que podia ser só impressão minha, e voltei a folhear a revista. Passados alguns minutos, Seu Antônio disse, de maneira determinada: “Vou te contar uma coisa que nunca contei antes para ninguém”. O ponto de partida de seu relato remontava à sua juventude, quando deixou seu país e chegou ao Brasil, no final da década de 50, e com as economias que trouxe abriu por aqui sua primeira barbearia, para seguir com o ofício que herdara do pai e que já exercia em Portugal. Dessa passagem de sua vida eu até já sabia, assim como ele também sabe muito da minha, o que é resultado das conversas que tivemos em oportunidades pregressas. “Assisti à tomada do poder pelos militares e acompanhei o noticiário sobre o acirramento das tensões, mas aquilo não me dizia respeito, eu me sentia alheio”, dizia, enquanto eu, pelo tom grave de sua voz e pelo fato de a tremedeira que o Parkinson lhe causa estar mais acentuada que o normal, intuía um desabafo. “Entre 1970 e 1971, em plena vigência do governo Médici, tive um jovem freguês, uns dez ou 15 anos mais novo que eu, que ia ao salão cortar o cabelo regularmente. Ele me falava de liberdade, direito de expressão, classe oprimida, Cuba, revolução, arbitrariedades, tortura e assassinato por parte dos militares, tudo em voz baixa, em tom de segredo, porque, sabíamos, eram assuntos proibidos. Eu desconversava, não queria saber daquelas coisas, não queria confusão para o meu lado. Mas esse rapaz, que se chamava Enrico, também falava de sua vida, seus estudos, sua família, sua casa, suas viagens. E em vários momento eu sentia que cumpria a função de confidente dele para assuntos sentimentais. Não sei porque, mas ele me tinha em alta estima, e eu também gostava dele, porque era simpático e gentil”, continuou com o relato o Seu Antônio. “Certa feita, notei a ausência prolongada do rapaz, que costumava aparecer regularmente a cada dois ou, no máximo, três meses. Achei simplesmente que ele tinha se mudado de endereço, a vida seguiu, até que chegou aquela tarde que não me sai da memória. Três homens bem vestidos, de terno e gravata, chegaram no salão e, depois de alguns rodeios e de deixarem claro que sabiam muita coisa a respeito da minha vida e da minha família, perguntaram sobre um rapaz que eles sabiam ser freguês meu, chamado Enrico. Logo de início ficou claro que eram agentes do Dops, eu estava com medo, não queria confusão, e não hesitei em falar tudo o que eu sabia a respeito do jovem que eles estavam procurando. Nos dias seguintes, tentei não pensar mais no assunto, mas sentia um aperto no coração, um peso na alma, que, na verdade, não passou até hoje. Sei que posso ter sido responsável pela morte daquele rapaz porque fui covarde. Já naquela época, ainda com 40 anos incompletos, eu me tornei o velho que sou hoje”.

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