Stanley, o iluminado

Mostra “De Olhos Bem Abertos” convida a mergulhar de cabeça no abismo de um dos maiores diretores do cinema

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

2001. Marco da ficção científica rendeu ao diretor seu único Oscar, de efeitos visuais
warner
2001. Marco da ficção científica rendeu ao diretor seu único Oscar, de efeitos visuais

Uma das máximas mais repetidas em aulas de cinema é “escreva e filme aquilo do que você tem mais medo”. E um dos maiores temores de qualquer personalidade perfeccionista e sistemática é a instabilidade e o desgoverno, a perda do controle. É por isso que todos os filmes de Stanley Kubrick apresentam personagens à beira do colapso total.

Jack Torrance surta no hotel de “O Iluminado”. “Laranja Mecânica” é a desintegração do sistema criado por seu protagonista Alex. O desejo é a perdição do professor de “Lolita”. A guerra é esse abismo em “Nascido para Matar”. E até o HAL-9000 de “2001: Uma Odisseia no Espaço” entra em pane.

“Ele começa a se tornar humano e, como consequência disso, passa a não ter mais o controle com o qual está acostumado. O sintoma disso é ele cantar como uma criança no fim do filme”, analisa o curador do Cine Humberto Mauro, Rafael Ciccarini. É um convite a se aventurar nesse abismo que ele e sua equipe fazem na mostra “Stanley Kubrick: De Olhos Bem Abertos”, que exibe a filmografia completa do diretor, com cópias em DCP e película, entre hoje e 28 de agosto.

Mais do que simplesmente olhar para esse buraco negro, a retrospectiva desafia a mergulhar nele de cabeça logo de cara, com uma maratona de 35 horas ininterruptas de Kubrick, que começa hoje às 14h e termina amanhã às 22h. Para os corajosos que encararem a odisseia, o final guarda as possibilidades do orgasmo estético pleno com a obra de um dos diretores mais perfeccionistas da história do cinema – ou, claro, do colapso total.

Para o curador, esse paradoxo entre perfeição e limite do controle é a essência da filmografia do cineasta e tem a ver com a leitura que ele fazia do ser humano. “Ao mesmo tempo em que o homem é capaz das maiores proezas científicas – ir ao espaço, inteligência artificial – ele também é responsável por atrocidades insanas e boçais”, descreve. A capacidade de enxergar essa ilusão do ser humano – senhor da razão, mas incapaz de dominar seu abismo emocional interior – é o que fez Spielberg considerar Kubrick o “ilustrador conceitual da condição humana”.

“Existe algo inerentemente errado com a personalidade dos homens. Há um lado mau nela”, Kubrick afirmava. Ciccarini acredita que essa visão está sintetizada na sátira nuclear de “Dr. Fantástico”. “O maior símbolo dessa dicotomia é a bomba atômica. É necessário um coeficiente de inteligência enorme para construir algo tão potente, que ao mesmo tempo pode causar a destruição da raça humana, e é controlada por um monte de homens se comportando como crianças”, ele ri.

Esse cinema em que a razão é um caracol comendo seu próprio rabo se reflete na “busca perfeccionista para se chegar aos limites dessa própria busca”, afirma o curador. Essa perfeição compulsiva, e quase patológica, é a grande responsável pela filmografia do diretor se constituir de apenas 13 (mas intensos) longas e três curtas.

Tom Cruise conta, no documentário “Kubrick: A Life in Pictures”, que o diretor lhe explicou que “todas as cenas já foram feitas. Nosso trabalho é fazê-las um pouco melhor”. É esse o espírito que levou o cineasta a fazer a obra definitiva em cada gênero que trabalhou: “O filme de guerra” (‘Nascido para Matar’), “O filme de terror” (‘O Iluminado’), “A sátira política” (‘Dr. Fantástico’), “O drama de época” (‘Barry Lyndon’). E é por isso que todos são referências e influência para qualquer cineasta até hoje.

“Ele estabelece novos parâmetros e reinventa o cinema de gênero a partir de um conceito de perfeccionismo”, argumenta Ciccarini. Se o diretor de cinema é um organizador do mundo na tela, Kubrick constrói um universo novo – milimetricamente calculado no design, figurino, trilha – e completamente diferente a cada filme, convidando o espectador a experienciar esse mundo. “Ele quer que você se sinta nas trincheiras da Primeira Guerra em ‘Glória Feita de Sangue’, que você veja o mundo à luz de velas como no século XVIII em ‘Barry Lyndon’, que você entenda o silêncio do espaço em ‘2001’”, lista o curador.

Essa experimentação do mundo é muito mais importante em Kubrick do que a própria história, por mais que seus longas sejam quase todos adaptações literárias. “Os filmes são mais sobre o sentimento que ele teve ao ler o livro do que sobre o livro em si”, opina Ciccarini. Sua mise-en-scène é uma construção sensorial que ele considerava bem mais próxima de outra arte. “Filmes são música: devem ser uma progressão de climas e sentimentos. O tema, que está por trás da emoção, e o significado, tudo isso vem depois”, disse o cineasta.

Ciccarini sintetiza com um bom exemplo. “Quando você vai a um concerto de Beethoven, não pergunta para o seu amigo na saída sobre o que era a música. Não tem que ser sobre alguma coisa. É por isso que o cinema do Kubrick não responde perguntas. Ele faz perguntas. E você sai cheio de dúvidas, repotencializadas e redimensionadas”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave