No corredor do hospital

iG Minas Gerais |

Uma noite em um hospital pode ser uma lição de vida. É pouco tempo. Ou, por outro lado, pode parecer uma eternidade. Tudo depende. Ali, vale a máxima: cada caso é um caso. E, aos acompanhantes, basta esperar. Mesmo que a espera seja longa. No corredor do pronto-socorro de um hospital privado, as cadeiras não são nada confortáveis para quem aguarda resposta, seja ela qual for. São alguns minutos, muitas horas ou até uma madrugada inteira na angústia da dúvida. Sentar-se não é alento para o homem baixo e de olhar aflito. Prefere ficar de pé, andando de um lado para o outro. Como se, assim, o tempo passasse mais rápido. O caso parece problema de coração. No coração da mulher dele. Celular na mão, avisa alguém da família. A voz está embargada, mal dá para ouvi-lo. Aperta uma bolsa junto ao corpo como se abraçasse a dona do acessório. Eu o vi pela última vez quando a maca onde estava a mulher seguiu rumo ao CTI. O vai e volta de enfermeiros e técnicos pelo corredor se reveza com os momentos de calmaria. As funcionárias conversam tranquilamente. Falam de amenidades, de suas famílias ou de coisas que ocorreram ao longo do dia. Para elas, é mais uma noite normal de trabalho. Não há por que saber ou se envolver nas histórias dos desconhecidos que estão por ali... Amanhã virão outros pacientes e outros acompanhantes... Melhor seguir o ritmo. E a longa linha vermelha leva da urgência à recepção. Por lá, aguardando atendimento, sozinha, uma jovem chora copiosamente. Não havia como não olhar. As dores abdominais pareciam fortíssimas. Só que, pela classificação de risco, ainda iria aguardar até chegar ao médico. Já havia recebido uma dosagem de remédio durante a triagem. Logo, estaria bem. O portão largo do espaço de ambulâncias se abre de tempos em tempos. O barulho ajuda a espantar o sono. O que ocorre no corredor volta a chamar a atenção. Mãe e filho caminham lentamente. A semelhança física evidencia o parentesco. Se ele já desfila a barba e os cabelos grisalhos, a senhora, então, parece já não querer mais contar os anos. Entram na sala de sutura, onde são recebidos por um médico de voz grave. Logo saem. Ele a empurrando numa cadeira de rodas. Iriam pra casa, mas sem muitos sorrisos. Com extrema gentileza, a jovem médica informa a um senhor de sessenta e poucos anos que a mulher sofreu um infarto e passará por um cateterismo. Ele ouve com atenção. O branco dos olhos estava vermelho vivo. Pergunta se pode ficar junto dela. Diante da negativa, ressalta com firmeza: “Diga a ela que estarei sempre aqui”. A moça sentada ao lado dele se levanta. Vai olhar o pai, mais uma vez, pela fresta da porta da urgência. Dali, ele parece ainda mais debilitado pelo câncer contra o qual está em guerra. Ela respira fundo, segura o choro. Volta a sentar-se na cadeira ao lado do senhor. Parece viajar nas lembranças. Imagina que o pai ainda quer mais dias para lutar. Um hospital não é definitivamente um ambiente feliz. Ainda assim, surpreende perceber quanto amor circula naquele lugar. E o amor tem uma acompanhante de peso: a esperança. São os dois que, juntos, tornam as noites menos dolorosas.

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