A Carta da Terra e as promessas de transformação da sociedade

iG Minas Gerais |

DUKE
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Para pormos em curso um tipo de grande transformação que nos devolva a sociedade com mercado e elimine a deletéria sociedade unicamente de mercado, precisamos fazer algumas travessias impostergáveis. Importa passar do paradigma “império”, vigente há séculos, para o paradigma “comunidade da Terra”; de uma sociedade industrialista, que depreda os bens naturais e tensiona as relações sociais, para uma sociedade de sustentação de toda a vida; da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos sujeitos à venda e à exploração para a Terra como um ente vivo, chamado “Gaia”, “Pacha Mama” ou “Mãe Terra”; da era tecnozoica, que devastou grande parte da biosfera, para a era ecozoica, pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e juntos cooperam na salvaguarda da vida; da lógica da competição, que se rege pelo ganha-perde e que opõe as pessoas, para a lógica da cooperação e do ganha-ganha, que congrega e fortalece a solidariedade entre todos; do capital material, sempre limitado e exaurível, para os capitais espiritual e humano ilimitados, feitos de amor, solidariedade, respeito, compaixão e da confraternização com todos os seres da comunidade de vida; e de uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocentrada, que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à lógica do processo cosmogênico, que se caracteriza pela sinergia, pela interdependência de todos com todos e pela cooperação. Se é perigosa a grande transformação da sociedade de mercado, mais promissora ainda é a grande transformação da consciência. Triunfa aquele conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de esperança para todos. Essa, seguramente, é a grande transformação das mentes e dos corações a que se refere a Carta da Terra. Esperamos que se consolide, ganhe mais e mais espaços de consciência com práticas alternativas até assumir a hegemonia da nossa história. A Carta da Terra é fruto de uma vasta consulta aos mais distintos setores da sociedade mundial, desde os povos originários das tradições religiosas e espirituais até notáveis centros de pesquisa. Foi animada especialmente por Mikhail Gorbachev. Depois de oito anos de intensos trabalhos e de encontros frequentes nos vários continentes, surgiu um documento pequeno, mas denso, que incorpora o melhor da nova visão nascida das ciências da Terra e da vida, especialmente da cosmologia contemporânea. Aí se traçam princípios e se elaboram valores no arco de uma visão holística da ecologia que podem efetivamente apontar um caminho promissor para a humanidade presente e futura. Aprovado em 2001, foi assumido oficialmente em 2003 pela Unesco como um dos materiais educativos mais inspiradores do novo milênio. A hidrelétrica Itaipu Binacional, a maior do mundo, tomou a sério as propostas da Carta da Terra, e dois diretores seus, Jorge Samek e Nelton Friedrich, conseguiram envolver 29 municípios que bordejam o grande lago, onde vive, cerca de 1 milhão de pessoas. Deram início de fato a uma grande transformação. Lá se realiza efetivamente a sustentabilidade e se aplicam o cuidado e a responsabilidade coletiva, mostrando que, mesmo dentro da velha ordem, se pode gestar o novo, porque as pessoas vivem já agora o que querem para os outros. Se concretizarmos o sonho da Terra, essa não será mais condenada a ser, para a maioria da humanidade, um vale de lágrimas e uma via-sacra de padecimentos. Ela pode ser transformada numa montanha de bem-aventuranças possíveis à nossa sofrida existência e uma pequena antecipação da transfiguração do Tabor. Para que isso ocorra, não basta sonhar, mas importa praticar.

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