Namoros manipulados na rede

Objetivo do trabalho foi mostrar como é fácil induzir relações sem usuário perceber

iG Minas Gerais | Molly Wood |

No escuro. Sites de relacionamentos utilizam dados e forjam informações conforme seus interesses, diz proprietário do OKCupid
Yana Paskova / The New York Time
No escuro. Sites de relacionamentos utilizam dados e forjam informações conforme seus interesses, diz proprietário do OKCupid

Em junho, o Facebook admitiu ter testado parte de seu público para ver se as emoções são contagiosas, manipulando deliberadamente o conteúdo do feed de notícias de 700 mil pessoas. Depois que a revelação causou um rebuliço entre os usuários, reguladores de privacidade europeus começaram a analisar se a rede social teria violado alguma lei regional.  

E mesmo sabendo da má publicidade que o Facebook teve que amargar, a OKCupid publicou os resultados de três experimentos que fez recentemente com seus assinantes: em um deles, escureceu as fotos dos perfis; no segundo, escondeu o texto deles para ver como isso afetava as avaliações de personalidade: no terceiro, alterou as chances dos candidatos com os nomes escolhidos pelo software da empresa.

“Se você usa a internet, é objeto de centenas de experimentos o tempo todo, em todo tipo de site. É assim que eles funcionam”, escreveu Christian Rudder, presidente da OK, no blog da empresa.

A pesquisa descobriu que, quando um usuário do OKCupid era informado de que a outra pessoa tinha um nível de compatibilidade mais alto – os números são baseados em uma fórmula matemática criada pela empresa –, as chances de enviar uma mensagem fazendo contato eram maiores. Quem acreditava estar se correspondendo com um “bom partido” quase dobrava a probabilidade de envio de pelo menos quatro mensagens em comparação com os que, segundo as informações, tinham pouco em comum.

O teste também mostrou como é fácil para um site manipular os usuários sem que eles percebam. As pessoas que receberam os índices de compatibilidade alterados – algo entre 90% e 30% – não souberam da mudança antes de o teste começar. Depois de concluído, o OKCupid enviou e-mails revelando a verdade.

“Até entendo que o experimento seja parte do processo, mas acho que é bem mais invasivo que os outros porque pode afetar o resultado de forma muito significativa”, diz Zaz Harris, 37, usuária do site de Redwood City, na Califórnia.

E acrescenta: “Eu nunca me encontraria com uma pessoa que, segundo o site, tem 30% de compatibilidade comigo quando, na verdade, era 90%. Não tem nada de legal nisso, sério”.

No entanto, ela diz que suas expectativas em relação ao namoro online sempre foram baixas, independentemente das porcentagens exibidas. Se o experimento foi curto e deu margem a combinações.

“O pessoal nos procura porque quer que o site funcione e nós queremos o mesmo”. Não se sabe quantos desses arranjos manipulados resultaram em encontros, mas os dados sugerem que o maior índice de comunicação aconteceu entre as pessoas consideradas “combináveis” e as que receberam a mesma informação.

Mikolaj Jan Piskorski, professor de estratégia social do Instituto Internacional de Desenvolvimento, de Gerenciamento na Suíça, diz que os chamados “experimentos aleatórios” feitos pelo OKCupid e Facebook são “importantes, mas difíceis do ponto de vista ético”.

E os comparou a testes médicos nos quais os participantes recebem um placebo que acreditam ser um remédio que vai melhorar sua saúde. “As ciências sociais estão enfrentando os mesmos tipos de problemas”, admitiu.

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