A culpa não é do eleitor

iG Minas Gerais |

É recorrente nesses tempos eleitorais veicular propagandas, frases feitas, discursos inflamados sobre a responsabilidade do eleitor na escolha dos candidatos e, consequentemente, na construção de um país melhor por meio do seu “voto consciente”. Na época das manifestações, cartazes e posts nas redes sociais também insistiam nesse argumento: “quero ver manifestar é na urna, em outubro”. Outros eram ainda mais diretos e acusavam o brasileiro de não saber votar. Parte desse discurso pode ser atribuído à ingenuidade de acreditar numa revolução por meio da escolha de um ou outro em um sistema viciado, no qual se trocam as peças, mas os grandes problemas do país permanecem intocados. Outra parcela dessa ideologia de culpar o eleitor pode ser creditada à vigarice mesmo, pois parece mais fácil creditar mandatos corruptos ou inoperantes a quem vota. Mas o eleitor não tem culpa. Primeiro, porque é obrigado a votar. Segundo, porque, geralmente, ele é iludido – e não só os menos informados –; boa parte dos candidatos é cercada por jornalistas, marqueteiros, publicitários, consultores políticos e uma série de outros profissionais com o objetivo de transformá-los em produtos vendáveis. O eleitor, neste caso, assemelha-se a um consumidor. Várias vezes compra mal, é induzido a levar o produto mais barato ou, aparentemente, mais vantajoso. Assim como nas relações de consumo, deveria prevalecer o seu direito de trocar ou recusar uma mercadoria estragada ou comercializada de forma enganosa. Com certeza, alguém há de lembrar o caso de políticos comprovadamente corruptos e mesmo assim reeleitos por parcelas da população. É verdade, veja o caso do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (PR). Em 2001, Arruda admitiu, antes havia negado em discurso veemente no plenário, ter solicitado a funcionários do Senado a lista de quem havia votado a favor da cassação do senador Luiz Estevão e, depois, repassá-la ao senador Antonio Carlos Magalhães. Para não ser cassado pelo escândalo do painel eletrônico, renunciou ao cargo. Em 2006, beneficiado pela brandura da legislação e pela falta de memória do eleitorado, candidatou-se ao governo do DF e foi eleito. Na sua gestão, estourou um dos maiores escândalos de corrupção do país. Vídeos flagraram secretários e assessores do governador recebendo propina de empresários. O próprio Arruda foi flagrado recebendo R$ 50 mil em dinheiro. Ficou dois meses preso em 2010 e foi destituído do cargo. Agora, Arruda é novamente candidato ao governo e lidera as pesquisas de intenção de voto no Distrito Federal, com grandes chances de voltar ao cargo. Soa estranha a preferência do eleitorado por Arruda, mas, ainda mais absurdo é o ex-governador estar solto e ainda poder se candidatar a qualquer cargo público no Brasil. Se o eleitor tem culpa, ele está absolvido pela omissão do poder público, em especial a Justiça, com os criminosos políticos de grande poder aquisitivo. 

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