Filme retrata um futuro onde os fracos não têm vez

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Pearce é um protagonista impiedoso com ferrugem no coração
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Pearce é um protagonista impiedoso com ferrugem no coração

É difícil saber o que é mais hostil em “The Rover – A Caçada”: a luz dura e imperdoável do deserto australiano ou a inclemência violenta do protagonista vivido por Guy Pearce. Parafraseando Drummond, existe uma espécie de ferrugem desumana que corrói o futuro apocalíptico do longa, mas essa ferrugem parece ter contaminado ainda mais gravemente o coração dos personagens.

O diretor e roteirista David Michôd vai para a mesma locação de “Mad Max” para focar seu futuro desolado, dez anos após o “Colapso”. A civilização mal se sustenta, com um misto de comércio e escambo, em que o dinheiro parece valer pouco, e a vida humana menos ainda.

Pearce é Eric (nome que ele nunca diz e só aparece nos créditos), sujeito que tem seu carro roubado por três assaltantes. Quando ele se depara com Rey (Robert Pattinson), irmão de um deles, o protagonista mantém o rapaz refém e parte atrás dos bandidos.

Michôd faz questão de manter em suspenso o motivo pelo qual Eric faz tanta questão de seu carro – afinal, ele acaba ficando com a caminhonete dos assaltantes. Além disso, o protagonista nunca tenta ser simpático e, lá pela meia hora de projeção, já fez mais estrago e matou mais gente do que os supostos “antagonistas”.

Porque, assim como em seu longa anterior, o ótimo “Reino Animal” de 2010, o cineasta constrói um universo em que os maus são ruins, e os bons podem ser piores ainda. Ou melhor: não existem sujeitos bons, apenas personagens cujo ponto de vista é assumido pelo espectador devido à manipulação da narrativa.

Essa manipulação, no entanto, não é tão bem feita quanto no trabalho anterior do diretor. Se “Reino Animal” era um conto shakespereano, rico em nuances e encenação, “A Caçada” é uma estrutura narrativa seca como seu cenário. Pearce encarna sua melhor mistura de John Wayne e Clint Eastwood, mas no fim das contas, um universo em que a violência sem sentido é a lei torna bastante difícil se importar com o que acontece ali.

Pattinson, por sua vez, encara o desafio favorito de atores que querem se provar sérios: o personagem com um grau de deficiência mental. Como Robert Downey Jr. já preconizou em “Trovão Tropical”, porém, trata-se de uma linha tênue a ser caminhada, e o ator não consegue fazer do personagem o coringa imprevisível que de que o roteiro necessita.

Sua presença, porém, associada à aclamação da estreia de Michôd na direção, deram a “A Caçada” uma estreia no Festival de Cannes. O que mostra que o filme pode não ter esperança, mas a carreira do australiano tem bastante. (DO)

Outras estreias

Os fãs de Leandro Hassum poderão ver o humorista em sua nova comédia, “Vestido pra Casar”. No longa, codirigido por Gerson Sanginitto (“Área Q”) e Paulo Aragão (“Didi, o Caçador de Tesouros), Hassum é um noivo que, no dia do casamento, rasga o vestido de alta costura de uma das convidadas.

Já o Cine CentoeQuatro traz a Belo Horizonte “Cortinas Fechadas”, segundo longa realizado pelo cineasta iraniano Jafar Panahi desde sua prisão domiciliar pelo governo do país. O filme venceu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim. Em pré-estreia, chegam os longas “O Amor é um Crime Perfeito”, “Paraíso”, “Amantes Eternos”, “Uma Lição de Vida” e “Chef”.

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