Uma prática em vias de extinção?

Filme venceu o prêmio de melhor documentário no Festival de Pernambuco

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Inspiração. Longa usa peça inglesa do século XVII como pauta para discutir jornalismo brasileiro contemporâneo.
Fabio Rebelo
Inspiração. Longa usa peça inglesa do século XVII como pauta para discutir jornalismo brasileiro contemporâneo.

Alguns meses atrás, Jorge Furtado estava em um jantar com alguns amigos, quando um deles, jornalista, comentou ‘vocês viram essa que o filho do Lula é sócio da Friboi?’. “Eu quase cuspi minha comida. É incrível como alguém pode, não só acreditar – já que, se isso fosse verdade, seria capa de tudo quanto é revista –, como também espalhe sem o mínimo de crítica”, dispara.

São situações como essa que levaram o diretor gaúcho a realizar “O Mercado de Notícias”, documentário que diagnostica o jornalismo brasileiro contemporâneo que estreia hoje. Mais que um panfleto contra ou a favor da profissão, o filme faz algo que, infelizmente, não se aprende nas escolas. Ele ensina a ler o jornalismo, com um pensamento sintetizado em uma frase que Furtado cita no longa: “se você não está em dúvida, foi mal informado”.

“Tem que ler mais de uma versão. Ouvir o lado dos israelenses e dos palestinos. O que não pode, e é o maior vício hoje, é ler uma manchete ou uma legenda e sair repetindo no Facebook”, advoga.

Para isso, Furtado entrevistou 13 dos jornalistas brasileiros que ele mais respeita hoje. Entre eles, estão Mino Carta, Renata Lo Prete, Cristina Lôbo e Jânio de Freitas. Paralelo aos depoimentos, o diretor apresenta cenas de uma montagem da peça inglesa que dá título ao longa – usando-a como pauta para as entrevistas e como contraponto cômico, típico do cinema de Furtado, a um tema tão curricular.

Escrito por Ben Jonson em 1625, o espetáculo retrata a chegada do jornalismo na Inglaterra três anos antes. O cineasta descobriu o texto durante sua pesquisa para o filme, ficou impressionado com as semelhanças com o que se vê hoje e acabou fazendo a primeira tradução da peça para o português.

“É uma explosão do volume de informação, que antes era restrito a manuscritos de viajantes e à nobreza e, com a imprensa, se populariza enormemente”, explica. Na montagem paralela do documentário, o cineasta mostra como o fenômeno é parecido com o que aconteceu com a internet. “Há 15 anos, eu lia um jornal gaúcho, um nacional e via um ou outro telejornal. Hoje, eu tenho todos os jornais do mundo no meu bolso”, considera.

Em meio a essa “cacofonia de informações”, Furtado admite que a decisão de lançar “O Mercado de Notícias” em um período eleitoral não é por acaso. Entre os temas “como se faz a linguiça” abordados pelo filme, estão a relação promíscua entre veículos e publicidade governamental e a partidarização enrustida da imprensa nacional. Nas palavras de Mino Carta no longa, “a mídia brasileira é um partido político. Liberdade de imprensa aqui é o direito dos barões dizerem o que bem quiserem”.

“As pessoas têm que entender que as grandes empresas de comunicação têm interesses. Ninguém é neutro, todos têm uma visão de mundo, e sua narrativa da realidade está impregnada dessa visão”, argumenta Furtado. Para ele, o período eleitoral é o momento oportuno para que se assuma uma posição de responsabilidade diante disso. “Não só como leitores, mas como produtores de notícia porque todo mundo tem um Facebook, um Twitter ou um blog hoje e publica tudo”, analisa.

Notório petista, o gaúcho não esconde suas posições políticas em seus textos ou entrevistas. Mas afirma que não quis fazer um filme de nicho ou panfletário, o que fica claro na presença de nomes como José Roberto de Toledo, do “Estadão”, por exemplo. “Para evoluir, tem que conversar com gente que pense diferente”.

Ele gostaria, inclusive, que o longa fosse mais amplo do que acabou sendo. “Eu queria barrigas e erros na imprensa que tivessem sido prejudiciais ao governo FHC, pedi aos convidados, mas não achei nenhum. Contra os governos Lula e Dilma, a lista é interminável”, ri.

Ainda assim, esse zelo de não fazer da tela um palanque é o que impede o longa de ser mais incisivo e tocar nas feridas recentes da imprensa brasileira, como a cobertura do mensalão. “É um acontecimento midiático sem precedentes que, se eu fosse entrar, ia tomar conta do filme. Seria só sobre ele”, defende.

Ex-aluno de jornalismo que abandonou o curso pelo cinema, e news junkie assumido, Furtado termina o documentário numa nota positiva. Apesar do fim iminente do modelo de negócios do impresso, diagnosticado pelos entrevistados, ele acredita quando Renata Lo Prete diz que “nosso negócio não é o papel”. “A principal função do jornalista hoje é organizar, priorizar e selecionar informações e aqueles que tiverem mais critério vão sobreviver. Pode enganar? Sim, mas sua função é dizer a verdade e a sociedade precisa dessa função”, finaliza.

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