Sob o céu da Capadócia

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Pego a caderneta que me acompanhou na viagem à Turquia e releio saudosa as anotações que fiz sobre a incrível região da Capadócia.  Adoraria descrever as estonteantes paisagens vulcânicas com suas formações rochosas. Dizer da emoção de levantar-me às 4h da manhã para voar num balão, sobrevoando os vales com suas belas e extensas torres naturais. Mas, como me expressar se as palavras são tão restritas? E tento reter na memória essa surpreendente viagem que mexeu comigo. Em meio a pedras e cavernas, na secura do ar que se respira, no silêncio do lugar que foi palco de uma história, desde as primeiras civilizações, passando pelos hititas, cristãos e tantas outras, até os dias de hoje. Capadócia, há tempos vista por mim nas páginas de uma revista... Jamais imaginaria que poria meus pés ali, naquela terra seca e cheia de pedras, feito uma paisagem lunar que, no ocaso, inebria-nos com sua beleza dura e leve ao mesmo tempo. De Istambul ao aeroporto de Kayseri, levamos mais ou menos duas horas. Ao chegar, um calor de 38oC nos aguardava, assim como o guia falante e simpático que nos levou ao hotel, no alto de uma montanha. Meu quarto era uma caverna, originária de formações rochosas cortadas e esculpidas. Da varanda, a paisagem a se perder de vista, refletindo os tons vermelhos e amarelos oriundos de lavas e cinzas que há 10 milhões de anos iniciaram suas “obras-primas”. O céu amanheceu sem nuvens prometendo mais um dia de calor intenso. Nos dirigimos ao vale de Goreme, um complexo monástico, com suas igrejas e belos afrescos, ou então desprovidas de pinturas na parede, destruídas pelos não cristãos. Igrejas pequeninas, nascidas em grutas cavadas na rocha. Sabe-se que na Capadócia existia um grande número de cristãos, e algumas de suas cidades foram centros do cristianismo. São Basílio, um dos santos da região, vivia uma vida simples e recolhida. Segundo o nosso guia, foi ele quem implantou ali a oração em comunidade. Ritual que surgiu no lugar que chamamos de “Museu a Céu Aberto”, onde igrejinhas entranhadas nas cavernas nos atraem, animando-nos a subir escadarias e rochas íngremes sob um sol escaldante. Depois, a ida a um dos locais mais impressionantes que já vi na minha vida: as cidades subterrâneas. Utilizadas pelos povos pré-históricos, entre outras civilizações, foram aumentadas e melhoradas pelos cristãos – usadas como refúgio durante as perseguições. Verdadeiras cidades cavadas nas entranhas da terra. A que visitei tinha sete andares, mas apenas em quatro deles nos era permitido entrar. Dentro, havia depósitos para cereais, dormitórios, salas, cozinhas coletivas, cemitério, adegas, estábulos, entre outros, compartilhados entre várias famílias que durante meses moravam ali. Existiam poços de ventilação, assim como armadilhas para os inimigos, que, caso conseguissem entrar, eram banhados com azeite quente derramado do alto. Não aconselharia aos claustrofóbicos entrar, já que túneis compridos e apertados dão passagem de um aposento ao outro, na época iluminados por tochas. Segundo o guia, nessas cidades, que eram muitas, chegaram a morar cerca de 10 mil pessoas. Nem tento explicar, só mesmo vendo para compreender tamanha complexidade. Até hoje, penso nelas, nas pessoas que habitaram ali, nas crianças que não viam a luz do sol, e me impressiono cada vez mais com a força da sobrevivência. Paramos para tomar chá no alto de uma colina, cuja visão das formações geológicas com suas “chaminés de fadas” impressiona. No ar, uma melodia linda que me faz pensar. Depois, o vale Rosado, com suas rochas avermelhadas e os pombais da Capadócia, incrustados no alto, cujas pombas forneciam alimento e adubos, retirados uma vez ao ano. O passeio na fábrica de cerâmica, tradicional na região. O dono fala português e nos mostra a feitura e a pintura delicada de suas argilas. Cumprimentamos os mestres, cujas aprendizagens passam de pai pra filho. Encanto-me com a beleza de suas artes e com a paciência necessária até a obra terminar, às vezes, meses... Às mulheres, a missão de fazer tapetes, e aos homens, cerâmicas – ambos lindos e ricos de detalhes. O sol se põe, e os minaretes das mesquitas chamam para as orações... Tento dormir cedo, no dia seguinte tem o passeio de balão, cujos preparativos começam às 4h da manhã. Minha cabeça continua pensando no dia transcorrido, e, quando finalmente durmo, já é hora de sair. E lá vou eu, num balão de 30 metros de altura, sobrevoando a deslumbrante paisagem vulcânica, admirando torres e casas esculpidas nas rochas, numa altitude de 300 metros. Dizer o quê? Impossível descrever! Que a imaginação e o desejo nos portem sob o céu da Capadócia, onde, na minha pequenez, na imensidão da natureza, agradeci a Deus por estar ali.

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