A liberdade dos poderosos dispensa a hipocrisia

iG Minas Gerais |

Há muito a imprensa norte-americana assume abertamente posições favoráveis a essa ou àquela candidatura, às vésperas dos pleitos eleitorais. Os donos dos meios de comunicação admitem que não há neutralidade no que fazem. A bem da verdade, o espectro de opções nos Estados Unidos se limita aos postulantes do establishment: ou se é democrata, ou se é republicano. Raríssimas vezes a escolha recai sobre um tertius, quando algum magnata se acha imbuído de uma missão escatológica: salvar o capitalismo. As coisas, pelo menos, ficam claras por lá: a imprensa opera explicitamente a favor do político que defende os interesses de quem a financia. O mesmo ocorre em relação a bancos e administradoras de recursos que avaliam as propostas dos candidatos e as enviam a clientes especiais, investidores e imprensa. Nada parecido com o ridículo episódio Santander versus Dilma aqui, no Brasil. Aliás, há pouco, a Suprema Corte dos EUA escancarou de vez a simulação do “soft money”. Dispensou o último bastião do fingimento: os “Political Actions Committees”, biombos das doações de pessoas jurídicas para os candidatos. Disseram os juízes: as contribuições diretas de empresas às campanhas são legítimas manifestações da “liberdade de expressão”. Aqui, tudo é por baixo dos panos. Empresas passam dinheiro sem deixar rastro, por meio de diretórios partidários (agora, o TSE promete acabar com isso, será?). E na imprensa? A título de pretensa neutralidade, tudo é dissimulado. Jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV ignoram a realidade quando essa prejudica seus candidatos. Fazem do constitucional direito à informação “uma mera folha de papel”, como diria Lassalle. Fiquemos apenas no exemplo dos últimos dias. Muito se falou sobre abusos na aquisição, pela Petrobras, da refinaria de Pasadena, nos EUA. Por que nada se publicou a respeito da compra da refinaria San Lorenzo, na Argentina, em outubro de 2002, pela mesma Petrobras, por US$ 1,077 bilhão, e sua venda, em maio de 2011, por apenas US$ 102 milhões, ou seja, 10% do valor de aquisição, após a Petrobras ter ali investido outros US$ 88 milhões? Como se explica isso? Paira o manto de silêncio. A consequência disso tudo é uma disputa insossa. É como antevia a brilhante Rosa Luxemburgo: “Sem liberdade ilimitada de imprensa e de reunião, sem luta livre entre as opiniões, a vida morre em todas as instituições públicas, torna-se uma vida aparente, na qual a burocracia resta como o único elemento ativo. Essa é uma lei da qual ninguém pode se subtrair. A vida pública entra pouco a pouco em sono”. O problema é que a redução da vida pública à inércia gera, como um bumerangue, a busca de soluções autoritárias à direita e à esquerda, por conta da incapacidade dos detentores do poder político de resolver os impasses sociais. Longe está o dia em que o poder econômico e os difusores de ideologia se darão conta de sua expressiva colaboração com a emergência dessas alternativas políticas desatinadas. Quando atentarem, já terão sido engolidos por elas.

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