Trama sofre de mesmice

Com sequências abaixo do padrão Globo de qualidade, como a queda de um avião, “Boogie Oogie” estreia mal

iG Minas Gerais |

Cena. Deborah Secco e Alessandra Negrini são veteranas no elenco da trama de Rui Vilhena
João Cotta/ divulgação
Cena. Deborah Secco e Alessandra Negrini são veteranas no elenco da trama de Rui Vilhena

SÃO PAULO. A Globo estreou nesta segunda (4) “Boogie Oogie”, uma trama ambientada nos anos 1970. O que primeiro chama a atenção é a confusão que a Globo criou para si mesma nas linguagens específicas para cada faixa horária de novela. 

Antes, todos sabiam de antemão que às 18h haveria uma novela romântica, de época, para cativar o público que chega em casa do trabalho e não quer ver violência. Às 19h começava o horário de ação, com histórias menos previsíveis, vilões maquiavélicos, porém caricatos, e protagonistas envolventes.

Hoje, no entanto, o telespectador não sabe ao que vai assistir. Sai a fábula de “Meu Pedacinho de Chão” e entram de novo explosões, mortes e uma troca de bebês na maternidade. Afinal, vale a pergunta: que obsessão é essa da Globo por troca de bebês? Está faltando assunto, pelo jeito.

Desde a preparação do elenco, já se ventilava na Globo que a trama do moçambicano Rui Vilhena seria uma espécie de homenagem a “Dancin’Days” (1978), de Gilberto Braga. Na estreia, soou mais como plágio e menos como homenagem, especialmente em algumas cenas toscas e um cenário exagerado até para os anos 1970.

É preciso falar ainda da insistência da emissora em colocar trilha sonora daquele período, assim como faz em “Império” e “O Rebu”. Independentemente do contexto condizente com a época e da qualidade inegável de um Elton John, a impressão, para os mais atentos, é a de mesmice sonora em pelo menos três das quatro atuais tramas.

Outra repetição é o modismo de imagens aéreas. Depois das épicas cenas iniciais de “Império”, mais uma vez uma história começa no ar, em um aviãozinho que cai após uma pane. Ele quase se choca com o táxi que levava um noivo para a igreja. Tais exageros dramáticos já viraram folclore. Quem não se lembra de, pouco tempo atrás, em “Amor à Vida”, Juliano Cazarré, amarrado, ser esfaqueado dezenas de vezes, conseguir fugir, saltar de vários andares e sobreviver?

Em “Boogie Oogie”, a queda do avião ficou bem aquém do chamado padrão Globo de qualidade. Tudo pareceu muito forçado – da cena em si até o resgate do piloto pelo noivo, que, numa reviravolta (literal) do destino, salva a vítima, mas acaba preso e morre. Curioso é que todo esse malabarismo seja feito para dar alguma lógica ao roteiro. Mais curioso é que o piloto sobrevivente, à beira da morte, prefira ir à igreja avisar à noiva do outro que o amado morreu em vez de chamar o Samu dos anos 1970 e salvar a própria vida.

Como em “Império”, a Globo escalou um elenco de alto nível para segurar a trama. Em tempos de ibope cada vez menor, não dá mais para se arriscar com jovens atores saídos de “Malhação”. A novela tem de Francisco Cuoco a Letícia Spiller; de Alessandra Negrini a Giulia Gam; além de Deborah Secco e Isis Valverde, em seu primeiro grande papel, de fato.

Time bom existe. Mas, como a última Copa mostrou, só jogadores bons não vencem uma competição. É preciso tática, estratégia e um competente técnico-autor. Ainda é cedo para saber, mas o primeiro capítulo não foi auspicioso.

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