O anjo pornográfico está nu

Com direção de Helvécio Guimarães, espetáculo mostra escritor em sua rotina diária de cronista da vida cotidiana

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Inseparável. Guilherme Ruggio, que interpreta Nelson Rodrigues, com um cigarro na mão: autor chegava a fumar quatro maços por dia
Leonardo Noronha/Divulgação
Inseparável. Guilherme Ruggio, que interpreta Nelson Rodrigues, com um cigarro na mão: autor chegava a fumar quatro maços por dia

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”, assim definia seu ofício e a si próprio um dos maiores (se não, o maior) dramaturgo brasileiro: Nelson Rodrigues. Pois é assim, longe de rótulos e estigmas e na rotina de uma redação, que ele aparece no espetáculo “Nelson sem Pecado”, em cartaz de hoje ao dia 13, no Teatro de Câmara do Cine Theatro Brasil.

O espetáculo mostra o período em que Nelson escrevia diariamente para o jornal “Última Hora”, no Rio de Janeiro. “Um professor, especialista na obra de Nelson, nos garantiu que essa é uma época da qual se tem pouco registro dele. Mas o professor gostou tanto da peça que brincou que imagina o Nelson exatamente da maneira como nós o mostramos”, diza Guilherme Ruggio, que interpreta o dramaturgo no espetáculo.

Para composição do controverso e complexo personagem, o ator recorreu aos textos escritos pelo autor. “Eu li muita coisa. A biografia escrita pelo Ruy Castro (“O Anjo Pornográfico”, 1993, Companhia das Letras) e várias crônicas da época. Acho que, nas crônicas, ele se mostrava mais que nas peças. Principalmente, nas de futebol!”, destaca o ator. O tricolor (torcedor do Fluminense) Nelson era notoriamente um aficionado pelo esporte. E deixou pérolas reunidas no livro “À Sombra das Chuteiras Imortais”.

A tarefa de dar vida ao personagem contou com a contribuição do veterano diretor Helvécio Guimarães, que morou no Rio de Janeiro no período em que o “anjo pornográfico” trabalhava no “Última Hora”. “Ele pôde observar algumas coisas do temperamento do Nelson e tem uma que me parece mais importante: O Nelson e o Helvécio têm uma maneira de pensar a vida e a realidade que é muito ácida, muito irônica. Isso me ajudou muito”, revela Ruggio.

Sem muitos registros sobre o autor na época retratada pela peça – também porque se conhece mais suas ideias e textos do que ele propriamente – a tarefa, Ruggio garante, não foi das mais fáceis.

“Ele é um sujeito muito marcante. A gente se apropria e coloca muitas coisas pessoais na composição do personagem, mas ele não dá muito liberdade. Eu trouxe alguns aspectos psicológicos e outros físicos mesmo. O cigarro, por exemplo – e olha que eu nem fumo! A úlcera doía tanto que o fez trocar o cinto pelo suspensório. Outra coisa, o Nelson passava o dia inteiro debruçado sobre uma máquina de escrever, é muito doloroso ficar nessa posição. Eu saio exausto dos espetáculos”, ressalta o artista.

Tão grande quanto sua prolífica produção – para teatro e também de contos e crônicas escritos ao longo de sua carreira, no dia a dia de uma redação de jornal – é a fama de Nelson de debater e trazer à tona assuntos delicados e polêmicos, vários deles ligados a distúrbios e histerias familiares, como nas peças “Toda Nudez Será Castigada” e “Vestido de Noiva”. Em outras, há presença de elementos sobrenaturais, que assombram a memória dos personagens, como “A Mulher Sem Pecado”, sua primeira peça.

“Nelson sem Pecado”, no entanto, tenta trazer a vida mundana (sofrida) de Nelson, numa tentativa clara de o aproximar do público. “Ele teve uma vida difícil. Foi rico, faliu, passou fome. Além disso, (houve a) morte de vários irmãos, alguns de maneira trágica. Um, inclusive, foi assassinado dentro da redação. Além disso, a gente mostra ele sendo muito cobrado e pressionado dentro do próprio jornal, e o curioso é que o público toma partido. Fica do lado, se solidariza”.

Agenda O quê. “Nelson sem Pecado”

Quando. Hoje e amanhã, e dias 13 e 14 de agosto, às 20h.

Onde. Teatro de Câmara do Cine Theatro Brasil (rua dos Carijós, 258, centro)

Quanto. R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)

Saiba mais

Nelson se destaca na literatura brasileira por conseguir retratar a vida cotidiana com um colorido diferente. Às vezes, intenso até demais.

O histórico de Nelson Rodrigues bem como sua vasta bibliografia e peças do autor em cartaz podem ser vistos na página www.nelsonrodrigues.com.br

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