Conflitos

iG Minas Gerais |

acir galvao
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O conflito em Gaza já matou cerca de 2.000 pessoas em menos de um mês. Se a guerra perdurar e a média se mantiver, em um ano, serão 24 mil mortes. Aqui, no país abençoado por Deus e bonito por natureza, “onde não há guerra”, são 56 mil vidas que se vão anualmente. A maioria jovem, 70% negros. Quem se importa? Mais fácil chorar pelos mortos, órfãos e mutilados distantes do que pelo vizinho da favela, colado à nossa casa. Então... Vamos nos indignar com a injustiça de um país com Exército que subjuga um povo sem armamentos, e vamos fazer vista grossa sobre a polícia que mata, por prazer, adolescentes pobres da nossa vizinhança. Vamos ficar sem dormir pelas crianças de Gaza, que tão cedo já vivem uma experiência tão traumática. Mas não vamos gastar um minuto do nosso dia para lembrar do filho da nossa faxineira que convive com cadáveres nas ruas, tiroteios e toques de recolher, desde bebê. Vamos achar inacreditável como os seres humanos de lá podem ter tanto preconceito uns com os outros. E vamos fechar o vidro do nosso carro quando um mendigo tentar se aproximar. Vamos emitir opinião sobre um conflito que não temos a menor ideia de como surgiu. E vamos nos calar diante da nossa velha conhecida tragédia, endêmica, que faz parte da nossa rotina há décadas. Vamos pensar, refletir e formular teorias para que os povos de lá vivam em paz. E vamos ser contra aqueles que dedicam suas vidas para encontrar uma solução para a mortandade nas nossas periferias. Vamos sair às ruas, pedindo o fim do conflito longínquo. E vamos ficar em casa quando nos chamarem para exigir que parem com a nossa guerra particular. Vamos comemorar, abrir um espumante, se, um dia, tudo aquilo acabar, mesmo sabendo que isso tudo aqui permanece exatamente como sempre. E, assim, vamos vivendo, nos achando as criaturas mais sensíveis da terra por não ficarmos indiferentes a uma tragédia daquela proporção. Enquanto isso, um jovem negro pobre brasileiro há de se perguntar: quanto vale minha vida?  Nada, cara, nem um minuto do nosso precioso tempo, responderíamos.

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