O olhar para nossos limites

O Grupo Corpo retorna a Belo Horizonte onde inicia, a partir de amanhã, a segunda turnê do espetáculo “Triz”

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Turnê. Em sua segunda circulação pelo país, o Grupo Corpo apresenta “Triz” junto com a montagem “Onqotô”
Jose Luiz Pederneiras
Turnê. Em sua segunda circulação pelo país, o Grupo Corpo apresenta “Triz” junto com a montagem “Onqotô”

Rodrigo Pederneiras teve o desafio de compor “Triz”, espetáculo que volta ao cartaz amanhã no Grande Teatro do Palácio das Artes, onde cumpre temporada até domingo, se expressando apenas por meio da voz. Impedido de se locomover em razão de duas cirurgias feitas no joelho e no ombro, em 2013, a parceria entre o coreógrafo do Grupo Corpo e os bailarinos se baseou na confiança e na experiência mútuas para fazer o trabalho dar certo.

Tudo correu tão bem, ao seu ver, que mesmo após ter a saúde recuperada e passados 12 meses desde a estreia da montagem, ele não se viu tentado a modificar nada na criação. “Eu fiquei tão feliz com o resultado, apesar daquelas limitações, que não vi motivos para mudanças. Quando comecei a fazer a peça, eu estava com um medo danado. Não sabia se a terminaria. Mas, no fim, o processo se revelou muito legal porque notei que posso trabalhar de diferentes maneiras”, avalia Rodrigo.

Se ele chega a essa conclusão de si mesmo ao fechar esse percurso, todo o trabalho lhe reafirma a percepção de que lida com a melhor equipe. “Eu não estava caminhando, por isso eu não tinha outra escolha além de dizer como todos os movimentos deveriam ser feitos, e só conseguimos ser bem-sucedidos graças aos bailarinos do Grupo Corpo que são demais”, elogia.

O amadurecimento da obra, vista até o presente em várias partes do mundo, de Canadá, Estados Unidos a Tailândia, com passagens também por Alemanha e Itália, entre outros, Pederneiras também credita ao empenho de cada um. De acordo com ele, o elenco retorna aos palcos brasileiros, agora em segunda turnê pelo país, a ser iniciada aqui, e segue para São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, ainda mais afinado com a proposta inaugurada há um ano.

“Eu tenho a impressão de que as pessoas que assistiram à montagem daquela vez vão sentir um trabalho muito mais forte agora. Isso acontece com frequência. Quando estreamos uma montagem, ela ganha vida de uma forma e depois se torna outra porque os bailarinos começam a se apossar melhor dos movimentos, tornando a obra mais madura”, observa o coreógrafo.

Embora ele revele não ter feito alterações no espetáculo, que tem trilha sonora produzida por Lenine e cenário assinado por Paulo Pederneiras, a apresentação deste será seguida da encenação de “Onqotô” (2005), em vez de “Parabelo” (1997), como foi feito há um ano. A escolha, ele explica, permanece guiada pela vontade da companhia em revisitar coreografias pouco interpretadas recentemente e possíveis de serem retrabalhadas no intervalo de tempo que eles dispunham.

“Nós pensamos em algumas possibilidades. Como já estávamos em cima do início dessa segunda turnê, não poderia ser uma criação que exigisse muitas readequações. Por exemplo, ‘Santagustin’ (2002) é uma peça que não fazemos há um bom tempo, mas para levá-la ao palco nós notamos que precisaríamos repensar uma série de coisas. Uma delas é o início do espetáculo que abre com sons de celulares. Porém, isso meio que se perdeu porque hoje em dia nenhum aparelho soa como aqueles”, diz Pederneiras “Optamos, assim, por ‘Onqotô’ que eu particularmente adoro”, acrescenta.

Como em “Triz”, “Onqotô” tem o figurino concebido por Freuza Zechmeister. Soluções simples, mas que provocam grande impacto visual, para ele, unem essas criações.

“Em ‘Onqotô’ os bailarinos usam apenas malha preta, vermelha ou bege. Em ‘Triz’, Freuza usa o mesmo material nas vestimentas e separa as cores preto e branco ao meio. A ideia de limite está ali muito bem representada e é mais um acerto maravilhoso de Freuza”, afirma.

Diferenças. Enquanto a montagem de 2005, permeada por música de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, reflete questionamentos inesgotáveis, como a origem do homem e do mundo, “Triz” dialoga com o presente, no qual a noção de fronteira é um dos temas mais relevantes. “Eu acho que ‘Triz’ é bastante atual, pois nos provoca a pensar quais são os nossos limites. ‘Onqotô’, por sua vez, lida com perguntas eternas e abarca um olhar filosófico proposto por Caetano e Wisnik ”, compara o coreógrafo.

A tensão refletida na dureza dos corpos, em “Triz”, para ele, reflete o constante jogo de negociações arbitradas nas relações humanas. “Até onde a gente consegue manter a cabeça no lugar e levar as coisas com uma certa calma sem passar por cima de uma série de coisas é algo que testa esses limites. Os bailarinos em cena chegam muito perto de ultrapassar isso, sendo quase agressivos em certos momentos”, afirma o criador.

“O que, no entanto, não chega a acontecer, pois o limite é o outro e respeitá-lo parece uma coisa simples, mas na verdade é bem complicado”, conclui.

Agenda

O quê. Grupo Corpo apresenta “Triz” e “Onqotô”

Quando. Amanhã, 6ª e sáb., às 20h30; dom., às 19h

Onde. Grande Teatro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537, centro)

Quanto. R$ 80 (inteira), R$ 40 (meia)

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