O fim do azulejo, um ícone belo e antigo de arte decorativa

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Na semana passada, no Antiquário Azulejos – rua de Santaninha, 258, São Luís (MA) –, soube que não há mais fabricantes de azulejos no Brasil há uns dez anos e que, de lá para cá, comercializavam sobra de estoque, mas agora acabou! Insisti. A moça que me atendia foi breve: “Só há um jeito de comprar azulejos da linha colonial (antigos) e/ou azulejos fora de linha (fabricados há uns 20 anos), que é em antiquário/cemitério de azulejos, em quantidade pequena e a um preço bem salgado”. Repeti: “Quero nove metros de azulejos de várias cores: branco, amarelo, azul, vermelho, preto e verde para revestir uma lavanderia com uma arte em azulejos quebrados”. Após dois dias acessando sites e telefonando, a resposta foi igual nas lojas de material de construção: “Senhora, não temos, não se usa mais, saiu de moda! Agora só porcelanato, bem mais barato!”. Senti minha velhice ali. E arrematavam: “Não há mais azulejos como antigamente” (Ai, como sou caduca!). Resumo da ópera: não é mais possível revestir banheiro, lavanderia, copa ou cozinha com azulejos, imagina a fachada, como era costume em São Luís! Pras cucuias os valores funcional (proteção contra sol e chuva excessivos) e estético (expressão ornamental, artística e plástica em painéis e revestimento de paredes). Ao processar a dolorosa má notícia, fui ficando sem chão ao constatar que, no mercado globalizado, o azulejo virou obsoleto e foi extinto! Mas como? Por quê? A palavra “azulejo”, do árabe “Al-zulaij”, quer dizer “pequena pedra polida” e remonta às primeiras civilizações, além de ser tão lindo! Quem precisar reformar ambientes azulejados não terá mais como, pois até os cemitérios de azulejos em breve deixarão de existir! Dá pra imaginar o desastre? Como a gloriosa história do azulejo acaba assim, sem choro e sem vela? De origem oriental, o azulejo para revestir paredes foi disseminado pelos impérios muçulmanos. Os mouros o levaram para a península Ibérica. No século XVI, em Portugal, “a arte de azulejar foi totalmente abraçada e se transformou em expressão cultural nacional”, no formato quadrangular, com 14 centímetros. No Brasil Colônia, azulejos portugueses e holandeses foram incorporados à arquitetura de diferentes modos, mas só no século XIX começaram a ser produzidos aqui. Em meu romance “A Hora do Angelus” (Mazza Edições, 2005), cujo cenário é a cidade de São Luís, escrevi: “‘Afirmo-lhe que essa cidade, fundada em 1612, na ilha de São Luís, ladeada pela baía de São Marcos, o estreito dos Mosquitos e o oceano Atlântico, que vai sussurrando do rio Bacanga ao rio Anil, e com seus azulejos e vitrais, é, sim, a França equinocial, a única cidade do Brasil que é genuinamente francesa, mas, ao mesmo tempo, tão lusitana, com sobrados de azulejos portugueses da colônia asiática de Macau e seus mirantes belíssimos. (...) As melhores cidades da França são Paris, na Europa, e São Luís, na França equinocial, com mais de 3.500 edificações, datadas dos séculos XVII e XIX, com suas ladeiras, inúmeros becos e ruas estreitas e praças’. Ele amava o calçamento em pé de moleque, as pedras de cantarias, os sobrados de azulejos e seus mirantes de um romantismo ímpar”. Impressionada com o fim dos azulejos, disse ao amigo Rafael Calvão Barbuto, que estava comigo na peregrinação por azulejos, que nunca cogitei não encontrá-los na cidade dos azulejos. Não imagino um mundo sem azulejos! Em São Luís, a resposta cabe ao poder público: a prefeitura e o governo do Estado têm de manter viva a arte da azulejaria!

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