A gravidade da indiferença

iG Minas Gerais |

A situação se pinta tão preocupante que tem candidato apelando para que o eleitor não anule o voto. É cedo para demonstrar desespero, ou a indiferença que se projeta merece essa atenção de fato? A Justiça Eleitoral chama: “vem pra urna”, parodiando o bordão “vem pra rua”, dos protestos do ano passado. Mas, por enquanto, o apelo só rende eco. Quando um candidato tenta incentivar o cidadão a votar, antes de convencê-lo a votar nele, parece que vivemos em um ambiente de voto facultativo – o que se aproxima da verdade, na prática. Fato é que as últimas pesquisas confirmam a expectativa de que deveremos ter, em outubro próximo, os maiores níveis de abstenção eleitoral desde 1989. De acordo com o Ibope e o Datafolha, o volume de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo para presidente supera a casa dos 12%. Nas projeções realizadas em agosto de 2010, 2006 e 2002 (as disputas presidenciais mais recentes), a soma de brancos e nulos não passava de 6%, ou seja, metade da marca atual. Mas essa é só a face visível do problema. Os números dos levantamentos espontâneos – aqueles em que o respondente tem que dizer de memória em quem pretende votar – não têm sido destacados no noticiário, afinal, a dois meses da eleição, todo mundo sabe muito bem quem concorre, certo? Errado, ao que parece. A última pesquisa Datafolha, divulgada no mês passado, apontou que, espontaneamente, nada menos do que 48% não sabem quem vão escolher. Já a do Ibope, mais recente, estimou esse contingente de incerteza em 39%. Os institutos também perguntaram qual é o grau de interesse do eleitor no processo eleitoral. Para o Datafolha, 26% disseram que não têm qualquer interesse. O Ibope trouxe informação parecida: 27% não estão nem aí. Se a corrida ao Planalto, que é o carro-chefe das eleições gerais, que motiva posições mais acaloradas, não está conseguindo motivar o povo, o que se dirá das disputas para governador, senador ou deputado! Sim, o quadro é grave para o futuro próximo, traduzido em um índice significativo de ausência nas urnas, e além, já que aponta para o alargamento do abismo entre a sociedade e os políticos profissionais. O clima estampado nas manifestações de que “nada do que está aí me representa” repete-se na indiferença dos dados nas pesquisas. De um lado, metade do eleitorado não sabe em quem vota e um quarto não quer saber sequer quem se candidatou. Do outro, os partidos são incapazes de ler as demandas da sociedade e apresentar alternativas com nome e rosto. O quadro tende a ficar menos grave a partir do dia 19, quando a campanha passará a entrar nas casas das pessoas em horário nobre. Mesmo assim, o prejuízo a ser equilibrado pelas coligações é pesado, o que justifica o slogan: “vote em alguém e, se der, vote em mim”.

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