Traço e música como um só

Evento inédito vai reunir 16 artistas gráficos para ilustrar ao vivo shows de 12 bandas da capital, no Stonehenge

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

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A preocupação é a mesma: amplificadores ligados ao mesmo passo em que lápis de cor estão devidamente apontados. É que enquanto músicos tocam, ilustradores e desenhistas se inspiram nos sons que ouvem para colorir ideias projetadas em um telão de frente para a plateia. Tudo ao vivo e em caráter experimental. É nessa junção de criatividade espontânea que o festival “Traço – Desenho e Música Ao Vivo” estreia, nesta sexta-feira, na primeira de quatro sessões de arte que vão movimentar o Stonehenge Rock Bar durante um ano.

Apesar de inaugurar sua primeira edição neste fim de semana, as primeiras fagulhas do festival nasceram em novembro do ano passado, com um show da banda Templo Plástico ilustrado ao vivo pelos desenhistas Jão, 27, e Bruno Pirata, 23. “Ano passado os ilustradores estudaram nosso repertório para criar algo diferente no show, e aí nasceu uma história em quadrinhos das nossas músicas”, diz Fábio Grutti, 30, vocalista do Tempo Plástico.

Na época, os dois desenhistas levantaram R$ 8 mil via Catarse – plataforma colaborativa de financiamento – apenas para lançar o selo Passaporte e publicar, paralelamente ao Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), projetos autorais, como os quadrinhos “Manchas”, de Jão, e uma série de pôsteres de Bruno Pirata.

“A gente tinha muita vontade de fazer alguma coisa além com o selo Passaporte. Assim surgiu o show com o Tempo Plástico. A gente fazia um desenho por música, em dois ou três minutos, e vimos que ficou muito corrido. Então, este ano vamos ilustrar com paciência o show todo, usando basicamente canetões coloridos”, diz o artista Bruno Pirata.

A partir dessa inspiração e com a ideia de jogar luz em mais talentos locais, o festival “Traço – Desenho e Música Ao Vivo” reúne 12 bandas e 16 artistas gráficos belo-horizontinos em encontros trimestrais, que também vão acontecer em novembro deste ano, março e julho de 2015, quando o festival se encerra. O resultado é uma salada de estilos como reagge, rock n’ roll, stoner barroco e música instrumental interpretados por expressões como quadrinhos, pinturas e até desenhos feitos com carimbos. “O que queremos é unir uma combinação de artes para provocar a plateia a pensar e criar novos laços artísticos. É um exercício espontâneo. Serão edições trimestrais, que vão durar até julho do ano que vem, inicialmente”, explica Helen Murta, da Pulo Comunicação, que organiza o festival.

Logo na estreia, a instrumentista Sarah Assis, 36, apresenta o som do seu acordeon – que ela aprendeu tocar sozinha há mais de 10 anos. Premiada na Coupe Mondiale de Accordion, principal concurso internacional do gênero, a instrumentista inova ao utilizar um pedal de distorção para atrair influências de blues e rock a um repertório que vai desde Astor Piazzola, passeando por Tom Jobim e Villa-Lobos, até Deep Purple. “É minha primeira experiência nesse formato de unir música e desenho. Acho instigante demais. É tão bacana que me dá vontade de tocar apenas com desenhos, para ver o que vai dar e me inspirar mais”, diz.

O trabalho de ilustrar o diverso repertório da artista ficará por conta da dupla Eduardo Damasceno, 30, e Luís Felipe Garrocho, 28, que variam entre lápis de cor, canetas bic, tinta aquarela e marcador de colorir na criação de suas artes. Os dois são criadores da série “Quadrinhos Rasos”, que se inspiram em letras de músicas diversas para criar quadrinhos viajantes. “No nosso projeto usamos influências distintas, desde Charlie Brow Jr., Planet Hemp, Michael Jackson e até funk, para criar histórias. O mais legal é que agora teremos como referência um som instrumental, sem letra para te inspirar. Então, na hora, vamos saber o que vai surgir”, diz Damasceno.

Quem vive a mesma ansiedade é o quadrinista Cleuber Cristiano, 35, artista ligado à cultura dos fanzines produzidos em xerox na década de 90. Autor da série “Arroz Integral”, que retrata o cotidiano e dificuldades das bandas underground, o desenhista vai desenhar ao som do rock da banda The Junkie Dogs, munido apenas de pincel atômico e canetas nanquim pretas. “Como eu tenho banda e fiz quadrinhos sobre bandas de rock independentes, ajuda na hora de reunir elementos para os desenhos. Com o Junkie Dogs, vou fazer um desenho mais underground, em preto e branco. O legal é que na hora tudo pode mudar”, diz o quadrinista. Festival. O “Traço” estreia nesta sexta-feira, às 21h, no Stonehenge (rua Tupis, 1448, Barro Preto), com shows de Sarah Assis com Eduardo Damasceno e Felipe Garrocho; Tempo Plástico com Jão e Bruno Pirata; e Junkie Dogs com Cleuber. A programação completa está disponível em www.otempo.com.br

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