Fuhad Sahyone

iG Minas Gerais |

Na 6ª legislatura que se iniciou no longínquo 1967, chegou à Assembleia Legislativa de MG um deputado que se abalou de Além Paraíba, no extremo da Zona da Mata, eleito pelo MDB. Um jeito simples e carinhoso no trato, respeitoso e afirmativo sempre, disposto a exercer seu mandato de deputado estadual através do exercício das credenciais que conquistou e seus eleitores lhe confiaram: o de ser um representante do povo. Só, mas tudo isso. Chamava-se Fuhad Fadel Sahyone essa figura referencial de honestidade, brio, decência, seriedade e trabalho. No seu primeiro dia na Assembleia, foi provisoriamente impedido de entrar na sala onde se reunia a bancada do partido porque o funcionário da porta não reconheceu nele um deputado eleito, tamanha a sua simplicidade. Fuhad se juntou à bancada que pertenceu para fazer oposição à ditadura militar. No seu primeiro ano na Assembleia, entre outras responsabilidades, ele quis entender o regimento interno da casa. Por se tratar da norma que detalha o possível a cada deputado, era fundamental (e ainda é) que o parlamentar saiba a extensão dos poderes e obrigações para o mandato a que fora eleito. E ele entendeu, esticando aos limites da lei o que era ser um deputado. Estudou as propostas orçamentárias do Executivo. Era governador Israel Pinheiro, companheiro de Juscelino Kubitschek na construção de Brasília. Das propostas orçamentárias, Fuhad conheceu todos os compromissos a que se propusera o Executivo, que na Assembleia tinha o controle e aplauso da bancada da maioria. Os compromissos, o realizado e as mentiras. Chamou às comissões técnicas todos os secretários, muitos dos quais ensinou ou informou o estado das pastas que administravam. Informou ao secretário da Educação, da Segurança Pública, do Interior e a vários outros quantos funcionários tinham suas secretarias, quantas escolas, o estado dessas, quantas comarcas não operavam como tal, por qual motivo. Desnudou assessores, enquadrou secretários e o próprio governador. Por último, Fuhad Sahyone havia se reservado para inquirir Ovídio de Abreu, secretário da Fazenda a quem cumpria maior responsabilidade no provimento e execução do orçamento. Trouxera duas Kombis de documentos e técnicos que recrutara às próprias expensas para a tacada final. Seria a desmoralização administrativa e política daquele governo, que apesar da reconhecida lisura de Israel Pinheiro, tinha uma equipe que deixava a desejar. Fuhad chegou à Assembleia, ainda na rua Tamoios, meia hora atrasado, tamanha a quantidade de informações que carregava para aquele ato final. Para sua surpresa, a presidência havia encerrado a sessão porque não estava presente o deputado inscrito para falar. Mesmo assim, Fuhad subiu à tribuna, esbravejou, gritou para o plenário as informações que tinha, cobrou de seus pares que exercessem a consciência de seus mandatos de deputado e representantes do interesse do povo. Não foi ouvido, esmurrou a mesa até sangrar a mão, teve um AVC e nunca mais voltou à Assembleia. Estava ali um homem sério demais para fazer um papel menor.

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