Wilmára na ponta dos pés

Bailarina supera doença rara e, após quatro cirurgias e dois anos sem subir a um palco, volta a dançar e a dar aulas

iG Minas Gerais | Natália Oliveira |

Wilmára Maliére, 47, voltou em apresentação no Sesc Palladium
LEO FONTES / O TEMPO
Wilmára Maliére, 47, voltou em apresentação no Sesc Palladium

“A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não.” O trecho foi escrito por Vinicius de Moraes em 1965 e quase 50 anos depois ecoa como um resumo da história de luta e fé da bailarina Wilmára Maliére, 47. Na sala vazia, ela dança na ponta dos pés com beleza e desenvoltura. Quem a vê nem imagina que, na linha da vida dela, estão quatro cirurgias na coluna, várias passagens pelo Centro de Tratamento Intensivo (CTI), e uma trajetória de superação pelo balé. Para ela, a alegria da dança anda junto com o triste diagnóstico da síndrome de Arnold Chiari, doença rara que ameaçou lhe tirar o bem mais precioso para uma bailarina: os movimentos. Ela ficou 20 anos sem fazer ponta, um dos principais passos do balé e dois anos sem subir a um palco, história que mudou no mês passado, quando se apresentou no Sesc Palladium.

Foi aos 11 anos na cidade de Palma, na Zona da Mata mineira, que ela viu a primeira apresentação de balé e ali já se encantou e se apaixonou pela dança. De família humilde, os pais não conseguiram colocá-la em uma escola de dança. Mesmo assim, ela não desistiu do sonho. Os primeiros passos foram ensaiados em casa mesmo, e, dessa forma, ela foi aprendendo a dançar.

Aos 19 anos, já sentia sintomas da doença quando se mudou para a cidade de Patos de Minas, no Triângulo Mineiro, começou a estudar balé e a ensaiar como bailarina profissional. “Eu fui fazer magistério porque minha família queria, mas para mim era a escapada necessária para investir no balé”, diz.

Em Patos de Minas ela ficou quatro anos e, aos 23 anos, ela procurou um destino ainda mais promissor, veio para Belo Horizonte, onde fez teste em academias de balé e começou a dançar profissionalmente. Ela chegou a participar do Centro Mineiro de Balé.

“Eu estava no auge, montava coreografia e fazia várias apresentações, mas comecei a ter novos sintomas da doença. Procurava vários médicos e ninguém descobria o que eu tinha, a doença foi ficando cada vez mais grave”, lamentou. Em 1995 ele precisou fazer a primeira cirurgia por causa da doença. Os ossos da coluna entraram na cabeça e começaram a causar danos motores e também ao pulmão da bailarina. “Eu perdi o equilíbrio e toda a minha força”.

Após mais três operações, ela não conseguiu mais fazer alguns movimentos do balé, como, por exemplo, ficar na ponta dos pés. Médicos disseram que, se ela sobrevivesse, ficaria tetraplégica. Mas, seis meses após a última operação ela já começava a ensaiar em casa de novo. Ficou dois anos sem subir ao palco, situação que mudou no último dia 10 de julho, quando Wilmára se apresentou no Sesc Palladium.

“Eu quis matar essa doença e renasci de verdade quando voltei para os palcos”, alegra-se. A apresentação foi realizada dentro do projeto Céu e Terra, idealizado por ela, sua irmã Meiry Isméria e pelo marido dela, Wéberty Marliére. O projeto é pioneiro no trabalho com bailarinos surdos e ouvintes e com violonistas, surdos, cegos e ouvintes. Ao todo são cerca de 40 participantes. Os ensaios acontecem em uma sala cedida pelo Colégio Arnaldo e os integrantes são, na maioria, dançarinos carentes.

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