Everédi

iG Minas Gerais |

acir galvao
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A turma gosta de zoar Everédi de bipolar porque tem dia que ele fica caladão e em outros dispara a falar, mesmo se não houver ninguém para ouvir. Antes de mais nada é preciso esclarecer que ele ganhou esse apelido em homenagem à velha pilha Eveready. Há dias em que a pilha está fraca e, em outros, muito carregada, como na quinta-feira passada, quando o encontrei em um bar. Antes que eu tentasse imaginar como fugir, ele já estava falando. Entre um gole de cerveja e outro, Everédi às vezes até cuspia, pra despejar seu tema predileto: falar mal do Brasil. “Coisas que só acontecem aqui, em nenhum outro lugar do mundo”, é um dos seus bordões. Por exemplo, ele criticava que, naquela mesma quinta, era inaugurado em São Paulo, com repercussão da mídia nacional, o Templo de Salomão, com capacidade para mais de 10 mil seguidores, exatamente no Dia Mundial do Orgasmo!!?? Everédi só concluiu o ensino médio, que na época em que ele estudava era o começo do chamado “segundo grau”, mas sempre gostou de ler e acompanhar o noticiário no rádio e na TV, para discutir o que chama de “coisas que ninguém entende neste país”. Por exemplo, na política. Ele diz não gostar da raça, mas tem sempre algo a falar do assunto, adora apontar os erros da categoria. Com a campanha eleitoral começando, já está na ponta dos cascos. Analisa o comportamento dos candidatos a presidente ou a governador, que, para ele, entra eleição, sai eleição, não muda. “Cada um fica esperando qualquer coisa que o outro fala pra contradizer, rebater, dizer que é mentira, martelam nessa briguinha um com o outro na tentativa de convencer quem é o melhor ou quem está falando menos mentira. Eles não apresentam propostas de governo, programa, no máximo vão pra rua dar tapinha nas costas dos eleitores e tomar café.” Não dá pra dizer que Everédi não é inteligente. Nem tampouco, depois de pedir outra cerveja, que ele está bêbado. Não me lembro de já tê-lo visto antes enrolando a língua ou cambaleando. Há momentos em que ele deixa os assuntos sérios e fica engraçado. Contou de uma frase que viu outro dia na estrada. O dono de uma antiga caminhonete F-1000 escreveu atrás de seu veículo: “É velha, mas ainda Ford”. Jurou que é verdade. Alguém da turma em que Everédi circula mais já cogitou que a razão de ele ficar acelerado em alguns dias, seria a mistura de remédio com bebida. Mas não há prova sobre isso. O estranho é que em outros dias ele fica caladão, e não adianta puxar conversa. Toma a sua cerveja nos cantos e vai embora sem ser notado. Na quinta-feira ele ainda riu do cara que, algemado, fugiu dirigindo a viatura da PM em que havia sido preso. Enquanto os policiais prestavam socorro a uma vítima de acidente provocado pelo dito elemento, suspeito de estar bêbado e drogado, este ligou o veículo e guiou para casa. Coisa que só acontece aqui, em nenhum outro lugar do mundo. A Copa passou, mas para Everédi ainda não. Ele insiste em frisar que torceu contra o Brasil porque, “se a seleção ganha, ninguém ia se lembrar do superfaturamento na construção dos estádios, dos elefantes brancos que agora estão aí, dos problemas que continuam na saúde, na educação”. Outra coisa que ele guarda da Copa é o slogan “Padrão Fifa”, só que adotou para outra função: definir as mulheres que entram no bar ou passam na porta. “Aquela é Padrão Fifa”, determina, sobre as que acha mais atraentes. Aproveito a chegada de Lélis, que, desavisado, só percebe depois que Everédi está nos dias de pilha cheia. Descobriu tarde. Eu digo que preciso ir ao banheiro, como de fato, mas depois posso ir embora tranquilo. Everédi nem vai se lembrar para quem estava falando. Lélis, sim, vai me cobrar essa. Mas já dei a minha cota de atenção.

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