Doença tira os movimentos de bailarina, mas não a vontade de dançar

Dançarina supera doença e depois de ficar 20 anos sem fazer ponta e dois anos sem dançar, ela volta aos palcos

iG Minas Gerais | Natália Oliveira |

Wilmára enfrentou quatro cirurgias na coluna, mas não desistiu de dançar
LEO FONTES / O TEMPO
Wilmára enfrentou quatro cirurgias na coluna, mas não desistiu de dançar

"A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não”. O trecho foi escrito por Vinicius de Moraes em 1965 e quase 50 anos depois ecoa como um resumo da história de luta e fé da bailarina Wilmára Maliére, 47. Na sala vazia, ela dança na ponta dos pés com beleza e desenvoltura; quem a vê nem imagina que na linha da vida dela estão quatro cirurgias na coluna, várias passagens pelo Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e uma trajetória de superação pelo balé.

Para ela, a alegria da dança anda junto com o triste diagnóstico da síndrome de Arnold Chiari, doença rara que lhe tira o bem mais precioso para uma bailarina: os movimentos. A bailarina ficou 20 anos sem fazer ponta, um dos principais passos do balé e dois anos sem subir a um palco, história que mudou em julho passado.

Foi aos 11 anos na cidade de Palma, na Zona da Mata mineira, que Wilmára viu a primeira apresentação de balé e se apaixonou pela dança. De família humilde, os pais não conseguiram colocá-la em uma escolinha de dança; mesmo assim, o sonho não morreu. Os primeiros passos foram ensaiados em casa e, autodidata, aprendeu a dançar.

“Eu guardava na memória o que a bailarina fazia e começava a reproduzir. Hoje eu sei que alguns passos estavam certinhos. Também aprendi com uma revista em quadrinhos da Turma da Mônica. Na história, a Mônica ensinava alguns passos para o Cebolinha e o Cascão. Eu aproveitei para aprender também. Desde que vi a apresentação não parei mais de pensar nisso. Eu queria tanto dançar que passei várias noites acordada sonhando com isso”, relembra Maliére. No entanto, naquele mesmo ano ela começou a sentir também os primeiros sintomas da doença, quando teve problemas de audição.

Confira o vídeo em que a bailarina conta sua história:

 

Mesmo doente, ela se manteve firme nos treinos em casa. Naquela época os médicos ainda não sabiam que a jovem tinha a síndrome e trataram apenas o problema de audição. Aos 19, Wilmára se mudou para a cidade de Patos de Minas, no Triângulo Mineiro, e começou a estudar e ensaiar como bailarina profissional. A desculpa para a família era que a mudança serviria para prestar vestibular e estudar magistério, mas Wilmára queria mesmo era dar início aos estudos na dança. Quatro anos mais tarde, a jovem deixou Patos em busca de um destino ainda mais promissor: em Belo Horizonte, fez teste em academias de balé e começou a dançar profissionalmente, incluindo sua participação no Centro Mineiro de Balé.

“Eu estava no auge, montava coreografia e fazia várias apresentações, mas comecei a ter novos sintomas da doença. Eu procurava vários médicos e ninguém descobria o que eu tinha. A doença foi ficando cada vez mais grave”, lamentou. Em 1995 ela precisou fazer a primeira cirurgia por causa da doença. Os ossos da coluna entraram na cabeça e começaram a causar danos aos movimentos e também ao pulmão da bailarina. "Eu perdi o equilíbrio e toda a minha força", se entristece.

Após três operações, ela não conseguiu mais fazer alguns movimentos do balé, como, por exemplo, ficar na ponta dos pés, um dos passos mais importantes para a dança. Wilmára ficou internada no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e os médicos disseram que se ela sobrevivesse ficaria tetraplégica. “Eu tive muito medo de morrer, mas em momento algum eu pensei em desistir da dança. Eu queria morrer em um palco”, enfatiza.

Reviravolta. Seis meses após a última operação ela já começava a ensaiar em casa de novo e estudava uma nova coreografia para apresentar. Mas durante quase 20 anos, Wilmára não conseguiu mais fazer ponta. Em 2012 ela passou por uma nova cirurgia e ficou dois anos sem subir aos palcos, situação que mudou no último dia 10 de julho, quando ela se apresentou no Sesc Palladium, na avenida Augusto de Lima, no centro da capital com o espetáculo "A Morte do Cisne" e passou quase a dança inteira na ponta dos pés.

"Eu quis matar essa doença que naquele momento foi o cisne. A apresentação foi muito importante para mim, ela fez com que eu me sentisse viva. Eu renasci de verdade quando voltei para os palcos", alegra-se. A apresentação foi realizada dentro do projeto Céu e Terra que foi idealizado por ela, sua irmã Meiry Isméria e pelo marido dela, Wéberty Marliére. O projeto é pioneiro no trabalho com bailarinos surdos e ouvintes e com violonistas, surdos, cegos e ouvintes. Ao todo são cerca de 40 participantes do projeto.

Além de bailarina, Wilmára é também coreógrafa e maitre – pessoa responsável pelo nível de competência dos dançarinos e pela unidade da apresentação de uma companhia. O espetáculo foi uma grande vitória, mas Wilmára não está totalmente satisfeita: agora ela quer criar a coreografia de um samba para dançar. “Um samba é difícil, meus médicos e minha família ainda nem sabem que tenho essa vontade. Vai ser uma grande superação dançá-lo, mas eu quero conseguir. Além disso, o samba é alegre e vai condizer com minha felicidade de estar bem e de volta aos palcos”, orgulha-se.

Wilmára espera conseguir também patrocínio e convite para a realização de espetáculos com o grupo Céu e Terra. Contatos para apresentações podem ser feitos pelo celular: 99686145.

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